No novo gráfico, carnes vermelhas, ovos, leite integral e manteiga aparecem no topo da pirâmide, ao lado de frutas e vegetais (Imagem: Reprodução)
Logo na primeira semana de 2026, o governo dos Estados Unidos divulgou a atualização das Diretrizes Alimentares para Americanos 2025–2030, documento que orienta políticas públicas de nutrição, programas de assistência social e recomendações dietéticas no país.
A nova versão ganhou repercussão imediata ao substituir o tradicional modelo MyPlate por uma pirâmide alimentar invertida, apresentada como símbolo de ruptura com orientações anteriores.
No novo gráfico, carnes vermelhas, ovos, leite integral e manteiga aparecem no topo da pirâmide, ao lado de frutas e vegetais.
Cereais, pães, massas, arroz e outros carboidratos passam a ocupar a parte inferior da hierarquia alimentar, enquanto açúcares adicionados e alimentos ultraprocessados surgem com forte recomendação de restrição.
A inversão visual foi interpretada por parte do público como um reordenamento das prioridades nutricionais.
Mais proteína no prato
A reformulação também trouxe mudanças quantitativas. Até então, a recomendação oficial de ingestão proteica era de 0,8 grama por quilo de peso corporal ao dia.
O novo documento eleva esse intervalo para 1,2 a 1,6 g/kg/dia e orienta que a proteína esteja presente em todas as refeições, diretriz que tem origem na nutrição esportiva.
“Essa recomendação mais elevada de proteína vem da nutrição esportiva, mas pode não ser adequada para a população em geral”, observa o nutricionista Carlos Eduardo Haluch, coordenador de pós-graduação da União de Ensino Superior do Iguaçu (Uniguaçu).
Segundo ele, estudos científicos associam o excesso de proteína animal ao maior risco de doenças crônicas.
“Já as fontes de proteína vegetal apresentam efeitos protetores”, acrescenta.
O papel das proteínas vegetais
Entre as principais fontes de proteína vegetal estão as leguminosas, grupo que engloba feijões de diversos tipos, ervilhas, lentilhas, grão-de-bico, soja e tremoço.
Além do aporte de aminoácidos, esses alimentos oferecem fibras, vitaminas, minerais e compostos bioativos antioxidantes, fundamentais para a saúde intestinal e metabólica.
Especialistas destacam que uma dieta baseada apenas em proteínas de origem animal tende a ser pobre em fibras, nutriente essencial para o funcionamento do intestino e para a prevenção de doenças metabólicas.
Redes sociais e leituras equivocadas
A mudança visual rapidamente ganhou espaço nas redes sociais. Influenciadores e até profissionais da saúde passaram a interpretar o novo desenho como um aval oficial a dietas low carb e hiperproteicas, com maior consumo de carnes, laticínios integrais e gorduras como manteiga e gordura animal.
Especialistas alertam que esse tipo de leitura ignora limites presentes no próprio documento e pode estimular padrões alimentares desequilibrados, especialmente quando não há variedade de fontes proteicas.
Gordura saturada no centro da controvérsia
Há evidências consolidadas de que o excesso de gordura saturada está associado a doenças cardiovasculares.
“O consumo excessivo é associado ao aumento do colesterol LDL, partícula que aumenta o risco de aterosclerose e outras doenças cardiovasculares”, alerta a nutricionista Milena Gomes Vancini, coordenadora do Ambulatório de Nutrição da Unifesp.
Entidades médicas como a American Heart Association também apontam que dietas ricas em gordura saturada aumentam o risco de doenças cardíacas e derrame, sendo os laticínios integrais e carnes vermelhas fontes relevantes desse tipo de gordura.
“Comam comida de verdade”
O anúncio das novas diretrizes teve forte carga política. Durante entrevista coletiva na Casa Branca, o secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., declarou:
“Estamos encerrando a guerra contra as gorduras saturadas”. Em seguida, reforçou: “Minha mensagem é clara: Comam comida de verdade”.
De fato, o guia enfatiza pontos respaldados pela ciência, como a redução de ultraprocessados, açúcares adicionados e alimentos industrializados, além do incentivo ao consumo de alimentos in natura ou minimamente processados.
Impactos em políticas públicas
Atualizadas a cada cinco anos, as Diretrizes Alimentares para Americanos têm impacto direto sobre políticas públicas e programas institucionais.
“Elas são então usadas para formular orientações para requisitos de merenda escolar, hospitais. Outras instituições as utilizam para determinar quais [são] suas refeições e outros serviços”, explicou a nutricionista Teresa Fung, professora da Harvard T.H. Chan School of Public Health.
Especialistas alertam que mudanças no guia podem afetar diretamente a alimentação de milhões de crianças e adolescentes atendidos por programas de merenda escolar nos Estados Unidos.
Comitê científico ignorado
Fung e a epidemiologista Deirdre Kay Tobias integraram o comitê científico responsável pelo Relatório Científico das Diretrizes Alimentares de 2025.
Segundo elas, muitas das recomendações técnicas não foram incorporadas ao documento final.
“A maioria das recomendações do comitê foi ignorada”, escreveu Cristina Palacios, professora da Florida International University e também integrante do grupo consultivo.
Risco de desequilíbrio nutricional
Para Tobias, priorizar exclusivamente proteínas de origem animal pode comprometer a qualidade da dieta.
“Fazer com que a proteína, o alimento, venha apenas da carne bovina todos os dias, ou frango ou apenas ovos, realmente corre o risco de criar um padrão geral muito baixo em fibras, porque não há fibras nesses alimentos [ou] nutrientes essenciais, fitoquímicos e minerais que são encontrados nas plantas”, afirmou.
Ela acrescentou: “Se as pessoas seguissem isso e tivessem mais proteína vinda de fontes de carne, isso realmente as coloca em risco de exceder o limite de gordura saturada”.
O olhar da presidente do CRN
No Brasil, a nutricionista e presidente do Conselho Regional de Nutrição da 2ª Região (CRN-2), Carmem Franco, reconhece avanços no novo guia, mas aponta contradições.
“Os guias norte-americanos antigos deixavam em grande quantidade o consumo de carboidratos refinados (alimentos processados e com farinha branca, como pães, massas e doces), que fazem parte da nossa rotina, mas não deveriam receber ênfase. Hoje, valorizamos mais os carboidratos integrais e eles pontuaram isso. Também há um estímulo maior ao consumo de proteína animal.”
Para Carmem, o incentivo à “comida de verdade” é o principal mérito do documento.
“É uma mudança necessária e que traz muitos pontos interessantes. Se essa pirâmide ajudar a divulgar mais essas melhorias, o incentivo à comida de verdade e ao consumo de água, pode contribuir muito com a saúde da população norte-americana”, avalia.
Ela ressalta, porém, que o modelo americano é mais simplificado que o brasileiro.
“Quando precisávamos herdar esses guias alimentares de outros lugares, o feijão, entre outras coisas, fazia falta. Porque é algo muito nosso. É um alimento que sabemos que é completo, que tem um papel nutricional e cultural importante. Então tem todas essas nuances, e o norte-americano é mais simples”, diz.
Crise de saúde pública como pano de fundo
O debate ocorre em meio a um cenário de crise de saúde pública nos Estados Unidos.
Segundo dados apresentados pelo próprio governo, cerca de 90% dos gastos do sistema de saúde do país estão associados ao tratamento de doenças crônicas relacionadas aos hábitos alimentares e ao estilo de vida, como obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.
Para especialistas, o desafio agora é garantir que a mensagem central — reduzir ultraprocessados e priorizar alimentos naturais — não seja distorcida por interpretações que normalizem excessos de proteína animal e gordura saturada.
Como resumiu Deirdre Kay Tobias: “Não acho que deva ser tão difícil saber o que é saudável e o que comer. Também não é um debate público. É ciência. O que é saudável e o que não é, o cerne disso não mudou”.
EUA × Brasil: como a nova pirâmide americana se compara ao Guia Alimentar Brasileiro
1. Enfoque geral do guia
Estados Unidos: O novo guia adota uma abordagem nutricional e funcional, centrada em macronutrientes (proteínas, gorduras e carboidratos) e no conceito de “comida de verdade”, com forte ênfase visual e quantitativa.
Brasil: O Guia Alimentar para a População Brasileira (2014) segue uma abordagem sistêmica e cultural, tratando a alimentação como um ato biológico, social, cultural e ambiental, e não apenas como soma de nutrientes.
2. Proteínas
Estados Unidos: Prioriza o consumo elevado de proteínas (1,2 a 1,6 g/kg/dia), com destaque para fontes animais, incluindo carne vermelha e laticínios integrais, embora mencione fontes vegetais.
Brasil: Incentiva o consumo de proteínas de forma variada e equilibrada, com forte valorização das leguminosas (especialmente o feijão) e recomendação de moderação no consumo de carnes, sobretudo as vermelhas e processadas.
Diferença-chave: o guia americano enfatiza quantidade; o brasileiro enfatiza variedade e moderação.
3. Gorduras
Estados Unidos: Defende o “fim da guerra contra as gorduras”, incluindo gorduras de origem animal e laticínios integrais, desde que provenientes de alimentos minimamente processados.
Brasil: Recomenda moderação no consumo de gorduras, especialmente as saturadas, e prioriza gorduras de origem vegetal, como óleos, sementes e castanhas.
Diferença-chave: o guia brasileiro mantém postura mais cautelosa em relação às gorduras saturadas.
4. Carboidratos e grãos
Estados Unidos: Reduz o protagonismo dos carboidratos e recomenda diminuir significativamente os carboidratos refinados, abrindo espaço para dietas com menor teor de carboidratos.
Brasil: Valoriza os carboidratos como base da alimentação, especialmente os alimentos in natura e minimamente processados, como arroz, mandioca, milho e batata, com preferência por versões integrais quando possível.
Diferença-chave: o guia brasileiro não marginaliza os carboidratos, mas condena seu processamento excessivo.
5. Alimentos ultraprocessados
Estados Unidos: Passa a condenar explicitamente alimentos altamente processados e bebidas açucaradas, com linguagem mais direta do que em versões anteriores.
Brasil: É referência mundial no combate aos ultraprocessados, sendo o eixo central do guia desde 2014, com a classificação NOVA.
Convergência: ambos reconhecem os ultraprocessados como um dos principais riscos à saúde pública.
6. Açúcar
Estados Unidos: Adota postura mais rígida, afirmando que nenhuma quantidade de açúcar adicionado é recomendada, especialmente para crianças pequenas.
Brasil: Recomenda evitar açúcar adicionado, mas com linguagem menos absoluta, focando na redução e no consumo ocasional.
7. Abordagem visual e comunicação
Estados Unidos: Utiliza a pirâmide invertida, um recurso gráfico controverso e sujeito a interpretações equivocadas.
Brasil: Não adota pirâmides nem quantidades fixas; aposta em mensagens práticas, como “prefira alimentos in natura” e “evite ultraprocessados”.
8. Cultura, ambiente e sociabilidade
Estados Unidos: O novo guia menciona pouco o contexto cultural e ambiental da alimentação.
Brasil: Integra aspectos culturais, regionais, sociais, econômicos e ambientais, valorizando o ato de cozinhar, comer em companhia e preservar tradições alimentares.








