Moradores de Peña Blanca, nas montanhas, encontraram uma maneira engenhosa de capturar as pequenas gotas suspensas no ar e transformá-las em água para a agricultura, pecuária e até mesmo o consumo pessoal (Foto: FAO/ Gabriel Marín)
Em alguns dias, o céu não entrega chuva. Em vez disso, uma névoa espessa desce silenciosa do oceano, cobre montanhas e se espalha por vales e ravinas.
É a camanchaca, um tipo de neblina comum no litoral norte do Chile. Árvores e plantas recebem essa umidade como um presente. Mas, para agricultores e comunidades locais, ela ainda não era suficiente: faltava água.
Até que a própria neblina virou fonte de abastecimento.
Na comunidade agrícola de Peña Blanca, dentro da Reserva da Biosfera Fray Jorge, nas encostas de uma cadeia de montanhas costeiras, moradores encontraram uma maneira engenhosa de capturar as pequenas gotas suspensas no ar e transformá-las em água para a agricultura, para a recuperação ambiental e espécies forrageiras.
A água também é serve para abastecer os pequenos rebanhos de ovinos e caprinos, uma atividade tradicional nessas área rural, e até mesmo utilizada para o consumo hunamo.
A região enfrenta há décadas uma combinação difícil, com chuvas escassas, variações climáticas e pressão crescente sobre fontes tradicionais de água.
Muitas famílias dependiam de poços e, quando eles secam, precisam recorrer a caminhões-pipa para garantir o abastecimento.
Foi nesse cenário que surgiram os captadores de neblina.
Captadores de neblina

A tela captura as pequenas gotículas da névoa e as transforma em água para a agricultura que fica acumulada em uma calha. Foto: Fundação Un Alto en el Desierto
A tecnologia parece simples, mas funciona com uma precisão impressionante. Criada originalmente na década de 1950 pelo cientista, arquiteto e professor chileno Carlos Espinosa Arancibia, a técnica começou a ser utilizada em diferentes áreas do país a partir de 2006, especialmente onde a falta de água se tornou um problema permanente.
O princípio é quase como “ordenhar” uma nuvem.
Grandes telas de malha são instaladas em pontos estratégicos das montanhas. Quando a neblina passa por elas, as minúsculas gotículas de água ficam presas na superfície, se juntam umas às outras e escorrem para calhas.
Depois, a água é conduzida até reservatórios e distribuída por mangueiras para áreas de cultivo.
Tecnologia simples pode captar até 650 mil litros de água

Da calha, a água é enviada para reservatórios que irão abastecer a comunidade. Foto: FAO/ Gabriel Marín
Com o apoio da Fundação Un Alto en el Desierto e de outras instituições, a comunidade instalou dezenas desses equipamentos na Reserva Ecológica Cerro Grande.
A Fundação ajuda no desenvolvimento de estratégias de adaptação à escassez de água por meio da educação ambiental, inovação e desenvolvimento de soluções hídricas de baixo custo, adaptadas aos territórios.
Ao longo dos anos, os próprios moradores aprimoraram os modelos, testando novos formatos, materiais e locais de instalação para aumentar a eficiência dos sistemas.
Um dos principais construtores dos captadores de neblina é Guido Rojas, de 65 anos. Nas últimas duas décadas, ele ajudou a criar dezenas de metros quadrados de áreas de captação.
Hoje, o projeto alcançou uma escala inédita. A Reserva Ecológica Cerro Grande possui 34 captadores, que juntos somam 306 metros quadrados de superfície coletora.
Em um ano, o sistema pode captar até 650 mil litros de água — principalmente durante a primavera, quando neblina e vento aparecem com maior frequência.
Projeto continua crescendo


Este ano, mais 90 metros quadrados de captadores de neblina foram instalados na reserva. Fotos: La Fundación Un Alto en el Desierto
Recentemente, uma iniciativa financiada pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e implementada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em parceria com o Ministério do Meio Ambiente do Chile e a Corporação Nacional Florestal, instalou mais 90 metros quadrados de captadores de neblina na reserva.
Pedro Rojas, secretário de Planejamento (Secplan) de Ovalle, município onde fica a comunidade agrícola, destacou a importância da iniciativa para o desenvolvimento sustentável da região.
“O projeto de captação de seiva de neblina representa uma solução concreta para a escassez hídrica que afeta nossa região. Estamos falando de uma alternativa sustentável que nos permite aproveitar um recurso natural para fornecer água às comunidades, fortalecer a produção local e proteger o nosso meio ambiente”.
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Um dos principais construtores dos captadores de neblina, Guido Rojas, de 65 anos, ajudou a criar dezenas de metros quadrados de área de captação nas últimas duas décadas.Foto: FAO/ Gabriel Marín
A expansão deve gerar mais de 200 mil litros adicionais de água por ano, justamente nos meses de primavera e verão, quando a escassez costuma ser mais severa.
“Espero que possamos continuar apoiando o esforço feito pela comunidade para mostrar ao mundo que as coisas podem ser feitas”, afirma Gustavo Carvajal, presidente da Comunidade Agrícola de Peña Blanca, enquanto observa os painéis instalados no alto da montanha.
A experiência chilena mostra que, diante de um dos maiores desafios da agricultura moderna, produzir mais com menos água, algumas respostas podem estar onde ninguém costumava procurar, neste caso, no próprio ar.








