O cultivo da juçara (Euterpe edulis), espécie nativa da Mata Atlântica protegida desde 2008, também se tornou referência regional de preservação ambiental e agregação de valor à agricultura familiar (Foto:Fábio Zambonim/Epagri)
Uma palmeira vista durante um passeio no parque Beto Carrero, nos anos 1990, mudou o rumo da vida do agricultor Orival Chaves, em Itajaí, no Litoral Norte de Santa Catarina (SC).
Hoje, aos 73 anos, ele produz cerca de 15 toneladas anuais de açaí juçara em sistema agroflorestal e transformou a atividade em uma alternativa de renda sustentável após deixar o setor pesqueiro.
O cultivo da juçara (Euterpe edulis), espécie nativa da Mata Atlântica protegida desde 2008, também se tornou referência regional de preservação ambiental e agregação de valor à agricultura familiar.
A produção atende uma demanda crescente, especialmente de consumidores vindos da região Norte do país, acostumados ao consumo tradicional do fruto.
Orival relembra que a ideia surgiu de forma inesperada, durante visitas ao parque Beto Carrero com a esposa Carmem, natural de Tucuruí, no Pará, e a sogra, dona Dolores.
“Eu trazia sempre a minha falecida sogra, dona Dolores, pra passar uns tempos com a gente e quando ela viu as baguinhas caídas no pé da palmeira, catou, provou e disse que era um açaí muito gostoso. Aí eu fui perguntar para o gerente do parque se a gente podia colher um cacho, ele deixou e ficamos comendo açaí o dia inteiro, sujou toda a roupa! Foi aí que tivemos a ideia de fazer plantação”, recorda.
Primeiras sementes de juçara

Orival demonstra como faz a colheita do açaí juçara em seu sítio na localidade de Rio Novo, Foto: Renata Rosa/Epagri
O casal se conheceu em Brasília, em 1973, casou-se em 1982 e se mudou para Santa Catarina. Com saudade dos sabores da terra natal, Carmem trouxe as primeiras sementes de juçara para a propriedade localizada na comunidade de Rio Novo, em Itajaí. Atualmente, o sítio reúne cerca de 10 mil pés da palmeira.
“Vendo que a palmeira produzia bem por aqui, a gente começou a visitar clientes em Blumenau, Curitibanos, Jaraguá do Sul, tudo quanto é lugar onde tinha pé de açaí nos quintais a gente ia colher. Agora não preciso buscar cliente, eles vêm de longe comprar o fruto. Eu já cheguei a vender 10 toneladas para um cara de Garuva”, revela o produtor.
A produção ganhou escala a partir da chegada de uma pequena máquina de beneficiamento trazida por dona Dolores de Tucuruí. O equipamento, inicialmente utilizado para consumo doméstico, permitiu o início da produção de polpa congelada. Em 2016, Orival abandonou definitivamente a pesca para viver da atividade agrícola.
Hoje, a polpa é comercializada congelada diretamente na propriedade para consumidores interessados em um produto sem xaropes ou aditivos. Segundo o agricultor, o público valoriza o açaí puro, consumido tradicionalmente no Norte do país acompanhado de arroz, peixe e farinha.
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Agrofloresta desperta interesse técnico
O modelo adotado por Orival chamou atenção da equipe da Epagri, especialmente pelo cultivo em sistema agroflorestal, que mantém a palmeira em pé e contribui para a preservação ambiental.
O extensionista rural e engenheiro-agrônomo Antônio Henrique dos Santos foi um dos primeiros a identificar o potencial da propriedade.
A partir disso, a nutricionista e extensionista social Mabel Gomes Dias Lago organizou, no último dia 5 de maio, a 1ª Reunião Técnica “Sistema Agroflorestal na Produção de Açaí Juçara”.
O evento reuniu agricultores interessados em diversificar a produção e conhecer o potencial econômico do fruto.
Durante a atividade, Orival mostrou como realiza a retirada dos cachos utilizando um bambu adaptado, técnica desenvolvida para facilitar a colheita em uma região onde os agricultores não têm tradição em subir nas palmeiras, como ocorre no Norte do país.
A reunião também apresentou o projeto “Juçaras por aí”, coordenado por Márcio Reis, fundador da agroindústria Barbacuá, no Sul de Santa Catarina. A iniciativa promove o plantio da juçara aliado à conservação ambiental e à geração de renda para agricultores familiares.
Márcio conta que passou a trabalhar com a espécie em 2016, ao perceber o potencial econômico do fruto e os riscos associados à extração ilegal de palmito.
“Era uma alternativa à extração de palmito, que se produz só uma vez e é arriscado, já que o corte da palmeira nativa é ilegal”, argumenta.
Integração com outras culturas
Além do cultivo da juçara, a recomendação é integrar outras culturas no sistema agroflorestal, como banana e café sombreado, aumentando a diversificação e a renda das propriedades.
Em 2019, Márcio fundou a Barbacuá, agroindústria que produziu 40 toneladas de polpa em 2025. A matéria-prima vem de um viveiro com 160 mil palmeiras, em Praia Grande, e de cerca de 80 agricultores parceiros.
Segundo ele, o projeto ganhou novo alcance após ser incorporado como estratégia de compensação ambiental.
“O projeto foi aceito e indicado pelo Instituto do Meio Ambiente de SC (IMA) como agente de compensação socioambiental, fomentando o plantio e produção de juçara em nosso viveiro”, revela.
A meta agora é espalhar dois milhões de sementes de juçara na região, além de outras nove espécies nativas da Mata Atlântica. As ações incluem oficinas em escolas de Itajaí, Ilhota e Joinville para estimular a conscientização ambiental entre crianças e jovens.
Oficina culinária mostra potencial de agregação de valor

Um brownie a base de açaí e pasta de amendoim foi a receita escolhida para a oficina culinária com dicas para agregar valor ao açaí. Foto: Renata Rosa/Epagri
Outro destaque da reunião técnica foi a oficina culinária coordenada por Mabel Gomes Dias Lago. A atividade apresentou diferentes possibilidades de uso do açaí juçara em produtos com maior valor agregado.
Entre as receitas preparadas estavam brownie funcional, molho barbecue, pão e pudim à base do fruto.
“Pensei em fazer uma oficina para mostrar outras formas de uso da polpa, não só como alternativa de consumo, mas também como fonte de renda. Mostrar que também podem vender outros produtos com alto valor de mercado”, afirma Mabel.
Segundo a nutricionista, o açaí juçara possui elevado valor nutricional, sendo rico em compostos bioativos, antioxidantes, minerais, potássio, magnésio, ferro e vitaminas E, C e A.
A extensionista explica que o interesse pelo fruto cresceu após visitas técnicas realizadas no início do ano.
“A ideia do evento surgiu em janeiro, quando visitamos seu Orival para conhecer o cultivo e fiz uma postagem nas redes sociais. Um colega da Epagri de Tubarão viu o post e me colocou em contato com o Márcio, que além de fazer um trabalho pedagógico, compra a produção da agricultura familiar e está trazendo o projeto para o Litoral Norte”, conta Mabel.








