Por Evaristo de Miranda
Em 29 de maio celebram-se, juntos, o Dia do Geógrafo e o Dia do Estatístico. A data homenageia a criação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), principal referência nacional na produção de dados territoriais, demográficos, econômicos e sociais. Hoje, a instituição vive uma crise profunda.
O IBGE nasceu em 1936, ainda como Instituto Nacional de Estatística. No ano seguinte, incorporou o Conselho Brasileiro de Geografia e assumiu a forma atual. Desde então, é um dos pilares técnicos do Estado brasileiro.
A união entre geografia e estatística não ocorreu por acaso. Desde a Antiguidade, ambas caminham juntas. Egípcios, gregos, romanos e árabes desenvolveram cadastros, mapas e recenseamentos para administrar territórios, organizar impostos, planejar guerras, abrir rotas comerciais e compreender sociedades. Eratóstenes inventou a grade de meridianos e paralelos, e calculou a circunferência da Terra com notável precisão. Ptolomeu estruturou a cartografia matemática, com seus sistemas de projeção; Al-Idrisi criou um dos mapas mais avançados da Idade Média.
Até hoje, geografia e estatística continuam essenciais para subsidiar políticas públicas, medir a economia, compreender migrações, planejar cidades, monitorar o território e analisar mudanças sociais.
Por isso, preocupa a crise institucional instalada no IBGE desde 2023, com a gestão de Márcio Pochmann. Professor da Unicamp, ele foi o candidato do Partido dos Trabalhadores à Prefeitura de Campinas nas eleições de 2012 e 2016, sem se eleger.
Os conflitos entre a presidência e os quadros técnicos provocaram exonerações, pedidos de demissão e sucessivas manifestações internas. A crise começou nas Contas Nacionais, após a demissão de Rebeca Palis, servidora de carreira responsável pelas análises do PIB. Em solidariedade, outros gerentes também deixaram seus cargos.
A situação se agravou com protestos e a demissão das diretorias de Pesquisas e de Geociências. Mais de 600 gerentes, coordenadores e diretores assinaram cartas criticando a condução administrativa do instituto e alertando para riscos de interferência política em áreas técnicas.
Entre as preocupações manifestadas por servidores estão possíveis impactos sobre indicadores estratégicos, como inflação, emprego e renda, e temores de interferência política na produção estatística. Também provocou forte reação à tentativa de criação de uma fundação paralela, o chamado IBGE+, posteriormente considerada ilegal pela Advocacia-Geral da União.
A crise extrapolou os bastidores administrativos. O instituto tornou-se alvo de críticas públicas após divulgar um mapa-múndi invertido, com o Brasil no topo da representação cartográfica. Técnicos e o sindicato dos servidores apontaram desrespeito a convenções internacionais e uso promocional da cartografia.
O Atlas Geográfico Escolar também sofreu questionamentos por erros conceituais, incluindo confusão entre períodos geológicos e trocas de siglas de estados. O IBGE precisou publicar erratas.
O 12º Censo Agropecuário foi adiado por restrições orçamentárias e falhas de planejamento. A coleta está agendada para 2027. Um novo atraso é provável. O cronograma depende de verbas e da homologação de concurso público para recenseadores condicionados ao calendário eleitoral.
Em março deste ano, o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União, pediu o afastamento de Márcio Pochmann da presidência do instituto, citando irregularidades administrativas relacionadas à substituição de servidores de carreira e à tentativa de implantação da Fundação IBGE+.
Instituições de Estado não pertencem a governos, partidos ou correntes ideológicas. Pertencem ao país. O IBGE construiu, ao longo de décadas, uma reputação técnica reconhecida nacional e internacionalmente. Sua credibilidade depende da autonomia científica, da confiança pública e da valorização de seus quadros especializados.
Quando um órgão encarregado de orientar o Brasil perde a capacidade de produzir consensos técnicos internos, o país inteiro perde referências. Em geografia, quem perde a bússola fica sem rumo. A luz vem do Oriente. Quem não enxerga o Sol fica desorientado. E acaba nas trevas. Gilberto Gil resumiu isso de forma simples e precisa: “Se Oriente, rapaz…”








