Com a redução de áreas nativas e a expansão urbana e agrícola, essas aves encontraram nas plantações um ambiente mais previsível e abundante em alimento (Foto: RenataMPB/Pixabay)
Elas são lindas, sociáveis e impossíveis de ignorar. Em muitas regiões do Brasil, o canto das maritacas virou trilha sonora do dia a dia — tanto no campo quanto na cidade.
Mas, para produtores rurais, essa presença crescente tem levantado um debate importante sobre como conviver com essas aves de forma equilibrada, sem comprometer a produção.
O tema ganhou destaque em Jarinu (SP), durante o simpósio “Desafios e Oportunidades no Convívio com as Maritacas”, que reuniu produtores, especialistas e autoridades em busca de caminhos mais sustentáveis.
“O aumento na quantidade de maritacas é visível, assim como o impacto direto na atividade agrícola, além da interface com o mundo urbano. A ideia é diminuir o impacto desse conflito”, disse secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos.
Por que as maritacas escolheram as lavouras?
As maritacas fazem parte da biodiversidade brasileira há muito tempo.
Conhecida também como periquitão-maracanã ou maricatã, a maritaca pertence à família dos psitacídeos — a mesma de araras e papagaios — e está distribuída por grande parte do Brasil, além de países vizinhos como Paraguai, Bolívia e Argentina.
Na natureza, vive em matas altas e áreas próximas a cursos d’água, onde se alimenta principalmente de sementes, frutos, flores e brotos.
Mas é justamente sua preferência por sementes, mais até do que pela polpa das frutas, que ajuda a explicar sua crescente presença nas lavouras.
Com a redução de áreas nativas e a expansão urbana e agrícola, essas aves encontraram nas plantações um ambiente mais previsível e abundante em alimento.
O resultado é uma mudança de comportamento que já se reflete diretamente na produção rural. Produtores relatam danos em culturas como milho, uva, pêssego e hortaliças, além de perdas em café, arroz, aveia e amendoim. Em alguns casos, há registros de prejuízos totais em áreas plantadas.
No caso do milho, o ataque de maritacas em plantas de milho safrinha reduz a produtividade de matéria seca para a produção de silagem em, aproximadamente, 20%. O efeito negativo na produtividade de biomassa reflete em aumento de 30% no custo de produção da tonelada de matéria natural de silagem.
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Desafios
Parte da dificuldade em lidar com o problema está no próprio comportamento da espécie. Maritacas são aves altamente inteligentes, vivem em grupo e aprendem rapidamente a contornar ameaças.
Métodos tradicionais de afastamento, como ruídos sonoros ou espantalhos, tendem a perder eficácia em pouco tempo. Ao mesmo tempo, por serem animais silvestres protegidos pela legislação brasileira, não podem ser alvo de medidas de controle que envolvam captura ou abate, o que limita as alternativas disponíveis.
Esse cenário tem levado especialistas a tratar a maritaca como um exemplo clássico de “fauna-problema”, termo usado quando uma espécie nativa passa a gerar impactos relevantes em atividades humanas.
Por isso, eles defendem abordagens mais amplas e coordenadas, que envolvam desde o planejamento das áreas de cultivo até estratégias de manejo baseadas em conhecimento científico.
Ao final do encontro em Jarinu, foi criado um grupo de trabalho para avançar em propostas de manejo e mitigação. A ideia é desenvolver estratégias que reduzam os impactos nas lavouras sem comprometer a preservação da espécie.








