Para especialista, práticas simples podem evitar perdas e elevar o padrão dos lotes, com impacto direto na remuneração do produtor (Foto: Divulgação)
A qualidade do café brasileiro começa a ser definida ainda no campo, mas é na colheita e, principalmente, no pós-colheita que o produtor decide o valor final do seu produto. Falhas nesse processo podem comprometer todo o potencial da lavoura, mesmo quando a produção apresenta bom desenvolvimento agronômico.
Segundo o engenheiro agrônomo, Aldir Alves Teixeira, erros operacionais simples continuam sendo um dos principais gargalos da cafeicultura. “A presença de frutos verdes e o manejo inadequado após a colheita são fatores que impactam diretamente a qualidade da bebida e, consequentemente, o preço recebido pelo produtor”, afirma.

A colheita seletiva é o primeiro passo para evitar perdas na cultura do café. Foto: Shutterstock
De acordo com o especialista, a colheita seletiva é o primeiro passo para evitar perdas. A recomendação é iniciar a operação com no máximo 5% de frutos verdes ou verdoengos. “Colher no ponto correto de maturação é determinante. Misturar frutos compromete o padrão do lote e reduz seu valor comercial”, explica.
Outro ponto crítico é o tempo entre a colheita e o processamento. O acúmulo de café recém-colhido, prática ainda comum em algumas propriedades, pode desencadear fermentações indesejadas. “Deixar o café amontoado por horas é suficiente para iniciar a deterioração da qualidade”, alerta.
Pós-colheita exige agilidade e controle
Após a colheita, o café deve ser rapidamente encaminhado para o processamento. O processo de lavagem e descascamento deve ser feito no mesmo dia, sem remover a mucilagem, preservando as características do grão, como corpo e doçura. O início imediato da secagem também é fundamental para preservar as características sensoriais do grão.
“O pós-colheita é uma etapa técnica e exige disciplina operacional. Camadas finas no terreiro, revolvimento constante e controle de umidade fazem toda a diferença no resultado”, destaca Teixeira.

O engenheiro agrônomo e CEO da Experimental Agrícola do Brasil/illycaffè, Aldir Alves Teixeira. Foto: Divulgação
A recomendação é que o café seja seco até atingir cerca de 11% de umidade, garantindo estabilidade e evitando defeitos. O manejo correto inclui, no início da secagem, o enleiramento, no período da tarde, em camadas baixas no sentido da declividade, sem nenhuma cobertura. Só deverá ser coberto após a meia seca com lona, jamais com lençol plástico preto. O armazenamento deverá ser feito em ambiente adequado, protegido de umidade, luminosidade e variações bruscas de temperatura.
Mesmo em propriedades com diferentes níveis de investimento, o uso de tecnologias simples e boas práticas pode reduzir perdas e aumentar a eficiência. “Não estamos falando apenas de alta tecnologia. Organização, timing e atenção aos detalhes já trazem ganhos expressivos de qualidade”, reforça.
Para mercados mais exigentes, como o de cafés especiais, esses cuidados são ainda mais determinantes. Além da qualidade física e sensorial, aspectos como rastreabilidade e sustentabilidade ganham peso na comercialização.
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Dez práticas essenciais para garantir qualidade
O agrônomo lista algumas recomendações técnicas consolidadas em um conjunto de boas práticas para orientar os produtores:
– Iniciar a colheita com menos de 5% de frutos verdes;
– Evitar amontoar o café recém-colhido;
– Lavar e descascar no mesmo dia;
– Encaminhar o café ao terreiro sem excesso de água;
– Iniciar a secagem imediatamente, em camadas finas;
– Revolver o café ao longo do dia e enleirar à tarde no sentido da declividade do terreiro;
– Trabalhar com cargas homogêneas e completas no secador;
– Respeitar o descanso até atingir 11% de umidade;
– Armazenar em ambiente escuro, ventilado, seco e protegido;
– Adotar práticas sustentáveis do ponto de vista econômico, social e ambiental

A adoção de boas práticas, além de preservar a qualidade do produto final, valoriza o trabalho do produtor e fortalece a cadeia produtiva. Foto: Shutterstock
Na avaliação o especialista, a adoção consistente dessas práticas não apenas melhora o padrão da bebida, mas também posiciona o produtor em mercados mais valorizados. “O principal desafio na fase de colheita e pós-colheita é seguir rigorosamente as recomendações técnicas. A adoção de práticas corretas não só preserva a qualidade do produto final, mas também valoriza o trabalho do produtor e fortalece a cadeia produtiva”, conclui.








