O investimento na formalização vem se mostrando um caminho viável e rentável para a cadeia agrícola, em especial de mandioca, na cidade de Sidrolândia, no Mato Grosso do Sul. Na imagem, Maria Clara Meurer, da Agraer, e os produtores de mandioca Rosangela Miranda e Dirlei Rodrigues (Foto: Agraer)
O barulho de um freezer se abrindo em um supermercado da cidade revela mais do que mandioca descascada pronta para o consumo.
Cada embalagem carrega a história de famílias do campo, a orientação técnica da Agraer e um processo sanitário que garante segurança ao consumidor. Um circuito que começa na terra e chega, de forma legal, às prateleiras.
A agroindustrialização da mandioca transformou Sidrolândia em referência no Mato Grosso do Sul.Atualmente, o município conta com 14 agroindústrias de mandioca formalizadas com acompanhamento da Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer), e pode alcançar cerca de 40 unidades este ano, considerando outras cadeias produtivas.
Dentro dessa engrenagem estão servidores da Agraer, como a assistente social Maria Clara Meurer, que há mais de duas décadas dedica parte de sua trajetória à agricultura familiar, sendo 11 anos atuando diretamente no fortalecimento da agroindústria.
É ela quem percorre estradas de terra, visita propriedades, se reúne com agricultores e insiste, com paciência, que regularizar vale a pena.
“Sidrolândia hoje é referência em agroindústria.Só de mandioca, são 14 formalizadas com a nossa assistência técnica. E, se somarmos outras culturas, podemos chegar tranquilamente a 35 agroindústrias”, pontua.
De porteira em porteira

Aniceto Bucanelli e Maria Helena Echeverria, da Agroindústria Dourada, Foto: Agraer
O trabalho Agência começa com a observação das estruturas já existentes na propriedade, passa por adaptações possíveis, pelo desenho de plantas baixas e pela organização do fluxo correto de produção, com a separação de áreas limpas e sujas para evitar contaminações.
Quem comprova, na prática, que a formalização abre portas é Maria Helena Echeverria.
Há mais de 30 anos na atividade, ela estruturou sua agroindústria no assentamento Eldorado II com apoio da Agraer, em 2012, e hoje fornece para mercados, além dos programas PNAE e PAA.
Com estrutura adequada, rótulo, selo da agricultura familiar e código de barras, Dona Maria entrega cerca de seis mil quilos de mandioca por mês, com renda líquida mensal acima de R$ 7 mil.
“Depois que fiz tudo conforme a lei, consegui ampliar e garantir mercado fixo. Isso sem contar as compras públicas”, resume.
Outro exemplo é o casal Silvana e Moacir Plizzari, casados há 34 anos. Por muito tempo, eles produziram com receio da fiscalização. Em 2023, com apoio da Agraer, adaptaram a estrutura, regularizaram a agroindústria “Família” e viram a renda crescer em 50%.
“Quando a mandioca é vendida sem processamento, o valor é outro. A gente vendia a caixa por cerca de R$ 35 a R$ 50. Já a mandioca descascada sai a R$ 5 o quilo. Dá uma diferença grande”, explica Moacir.
Considerando que uma caixa de mandioca tem aproximadamente 22Kg, o valor por quilo é pelo menos o dobro.
“Antes a gente trabalhava com medo. Hoje, trabalha de cara limpa”, complementa Silvana.
Atualmente, o casal comercializa cerca de 600 quilos por semana — aproximadamente quatro mil quilos por mês — atendendo mercados e restaurantes, inclusive em pontos estratégicos da rodovia que dá acesso à rota turística de Bonito.

Moacir e Silvana Plizzari, da Agroindústria Famíli. Foto: Agraer
Na Agroindústria Santa Lúcia, o casal Dirlei Rodrigues e Rosângela Miranda também deixou a informalidade.
Com investimento próprio de R$ 25 mil, aplicado gradualmente, eles atendem 15 clientes fixos e produzem uma média de quatro mil quilos de mandioca por mês, gerando uma renda líquida que varia entre R$ 10 mil e R$ 15 mil, já descontados os custos de produção.
“É melhor trabalhar regularizado. A vigilância nunca chegou fechando portas, sempre orientou e devemos isso a Agraer que criou esse diálogo entre a gente”, reforça Rosângela.
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Formalização orientada
Esse processo se consolida porque encontra uma Vigilância Sanitária que atua como parceira. Segundo Carseléia Gracioli, técnica da Vigilância Sanitária de Sidrolândia, o trabalho conjunto tem sido fundamental.
“A Agraer ajuda o produtor a compreender o que precisa ser adequado no campo, e nós entramos com o enquadramento das normas. Assim, as adequações acontecem de forma gradual, com diálogo e acompanhamento, respeitando os limites de cada família”, explica.
No varejo, a formalização é reconhecida. Aniceto Buchanelli, proprietário de um supermercado no município, compra cerca de dois mil quilos de mandioca por mês da agricultora Maria Helena.
“A gente a chama carinhosamente de ‘Dona Maria da Mandioca’. Quando o produto dela falta na ilha, o consumidor reclama. Então, a gente nem espera faltar”, afirma.
O sucesso das agroindústrias de Sidrolândia é resultado de um trabalho coletivo que envolve agricultores, Agraer e Vigilância Sanitária.
Além do acompanhamento técnico local, os produtores contam com o suporte da equipe técnica do Setor de Agroindústria Rural e Políticas Públicas de Compras de Alimentos da Agraer Central.
Este setor é responsável pela elaboração de rótulos, selo da agricultura familiar, códigos de barras, capacitações e cadastro no Prove, por meio do trabalho das servidoras Mariana Marques e Denise de Miranda.
Em Sidrolândia, a agroindústria deixou de ser risco e se tornou caminho. “Quando o produtor formaliza, ele ganha autonomia, valoriza o próprio trabalho e fortalece a economia local”, conclui Maria Clara.
Fonte: Aline Lira/ Agraer








