Diagnóstico rápido ajuda produtor a avaliar estrutura do solo e orientar manejo sustentável
Um método permite que produtores e técnicos identifiquem, de forma visual e direta, sinais de conservação da estrutura do solo ou se sua degradação por compactação e pulverização excessiva, nas camadas superficiais, até cerca de 25 centímetros de profundidade, foi desenvolvido pela Embrapa Soja (PR) em parceria com a Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Chamada de Diagnóstico Rápido da Estrutura do Solo (DRES), a metodologia é prática e acessível para avaliar a qualidade da estrutura do solo em áreas agrícolas.

Abertura para coleta de amostra – André Prando/Embrapa/Divulgação
O engenheiro agrônomo Henrique Debiasi, pesquisador da Embrapa Soja e um dos desenvolvedores da ferramenta, explica que a estrutura do solo — ou seja, a forma como partículas minerais e orgânicas se organizam em agregados e poros — é determinante para a fertilidade, pois influencia a infiltração de água, a circulação de raízes, a aeração e a atividade biológica. “Métodos tradicionais de avaliação estrutural, no entanto, costumam ser complexos e pouco práticos para o dia a dia do campo”, avalia o especialista.
Desempenho econômico e ambiental
De acordo com o pesquisador, o DRES foi concebido para uso em campo, dispensando equipamentos laboratoriais e análises demoradas. “O DRES vem para auxiliar o produtor e o técnico na tomada de decisão sobre o melhor manejo para melhorar a qualidade estrutural do solo. Com isso, é possível aprimorar o desempenho econômico e ambiental dos sistemas de produção de soja”, pontua.

Preparação da amostra – Foto Henrique Debiasi/Embrapa/Divulgação
Ele detalha que a aplicação do DRES começa com a abertura de uma minitrincheira e a retirada de um bloco de solo com o auxílio de uma pá de corte. “As coletas devem ser feitas em áreas homogêneas da propriedade, definidas conforme o histórico, tipo e textura do solo”, orienta o pesquisador.
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Critérios visuais
Segundo Debiasi, cada área homogênea não deve ultrapassar 100 hectares. “O bloco de solo é colocado em uma bandeja e fragmentado manualmente, revelando a estrutura dos agregados, raízes e poros. A avaliação é feita com base em critérios visuais, como tamanho e forma dos agregados, resistência e aspecto das faces de ruptura, presença e distribuição das raízes e sinais de atividade biológica”, ensina o agrônomo.
Ele completa que “cada amostra é dividida em uma a três camadas separadas visualmente, que recebem notas de 1 a 6: 1 representa estrutura degradada e 6 indica excelente condição física. A média dessas notas, ponderada pela espessura das camadas, resulta no índice de qualidade estrutural do solo, que serve para classificar o solo e orientar o manejo”.
Debiasi ressalta que, com base no índice calculado, o produtor pode avaliar se há necessidade de replanejar a adoção de práticas conservacionistas, alterar o sistema de manejo ou mesmo realizar intervenções mecânicas, como a escarificação. “Essas operações, quando feitas sem necessidade, elevam custos e podem até reduzir a produtividade das culturas”, alerta.

Amostra de solo – Foto André Prando/Embrapa/Divulgação
Operações mecânicas desnecessárias
O pesquisador da Embrapa enfatiza que, dependendo do resultado do DRES, a indicação técnica pode ser a realização de operações mecânicas de descompactação. “Mas por se tratar de um critério cientificamente validado, a aplicação do DRES evita a realização de operações mecânicas desnecessárias, que elevam os custos e podem reduzir a produtividade”, afirma.
De acordo com o agrônomo, além de oferecer um retrato rápido e econômico da condição física do solo, o DRES pode ser usado como ferramenta de monitoramento ao longo do tempo, permitindo verificar se o manejo adotado está de fato melhorando a estrutura do solo.
“Por isso, o DRES se destaca por sua simplicidade e rapidez, podendo ser aplicado em diferentes regiões e tipos de solo do Brasil, desde áreas arenosas até argilosas, e em distintos sistemas produtivos”, destaca Debiasi.

Solo com estrutura adequada – Foto Henrique Debiasi/Embrapa/Divulgação
Capacitação e limitações
Para ampliar o uso da metodologia, a Embrapa lançou um curso on-line gratuito destinado a técnicos, agrônomos, produtores e estudantes. O conteúdo aborda o passo a passo da aplicação do método, a interpretação das notas e exemplos práticos de campo.
Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que o DRES é uma avaliação visual e qualitativa, devendo ser complementado com outros indicadores físicos, químicos e biológicos do solo para diagnósticos mais completos. A coleta deve ser feita em condições adequadas de umidade, evitando solos muito secos ou encharcados, que dificultam a observação das feições estruturais.
Em um cenário de intensificação agrícola e de crescente preocupação com a conservação do solo, o DRES representa um avanço para o manejo sustentável. A metodologia alia simplicidade, baixo custo e confiabilidade, auxiliando o produtor na adoção de práticas que favorecem a produtividade e reduzem os riscos de degradação.
Mais informações estão disponíveis em Documentos 390 da Embrapa Soja, que detalha a aplicação do método e apresenta exemplos de uso em diferentes sistemas produtivos.
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DRES no ZARC
O uso recente do DRES no Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) representa um avanço metodológico na incorporação do manejo do solo à avaliação de risco agrícola.
No projeto-piloto do ZARC Níveis de Manejo (ZarcNM) para a cultura da soja no Paraná, o DRES passou a ser utilizado como indicador técnico da qualidade física do solo, permitindo classificar talhões conforme o nível de manejo adotado.
A integração do DRES ao ZARC possibilita ajustar o risco climático calculado — antes baseado apenas em variáveis meteorológicas e tipo de solo — à condição estrutural real do solo na propriedade, refletindo sua capacidade de infiltração, armazenamento e disponibilidade hídrica às plantas.
Com isso, áreas que apresentam melhor qualidade estrutural (notas elevadas no DRES) são enquadradas em níveis superiores de manejo tornando-se elegíveis a maiores percentuais de subvenção do seguro rural e reconhecimento formal das boas práticas conservacionistas.

DRES – Foto Adoildo da Silva Melo/Embrapa/Divulgação
O uso recente do DRES no Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) representa um avanço metodológico na incorporação do manejo do solo à avaliação de risco agrícola. No projeto-piloto do ZARC Níveis de Manejo (ZarcNM) para a cultura da soja no Paraná, o DRES passou a ser utilizado como indicador técnico da qualidade física do solo, permitindo classificar talhões conforme o nível de manejo adotado.
A integração do DRES ao ZARC possibilita ajustar o risco climático calculado — antes baseado apenas em variáveis meteorológicas e tipo de solo — à condição estrutural real do solo na propriedade, refletindo sua capacidade de infiltração, armazenamento e disponibilidade hídrica às plantas. Com isso, áreas que apresentam melhor qualidade estrutural (notas elevadas no DRES) são enquadradas em níveis superiores de manejo tornando-se elegíveis a maiores percentuais de subvenção do seguro rural e reconhecimento formal das boas práticas conservacionistas.
AgroTag DRES
A Embrapa desenvolveu o AgroTag, uma plataforma digital destinada ao registro georreferenciado de informações agrícolas em campo, que permite integrar dados agronômicos, ambientais e de manejo.
Segundo Sérgio Pimenta, especialista em agricultura regenerativa e CEO da 360Consult, o Instituto Folio financiou a inclusão de um módulo gratuito, específico para o DRES, dentro desta plataforma, com o objetivo de facilitar a adoção dessa ferramenta essencial para a agropecuária regenerativa e sustentável.
Utilizado nesse contexto, o AgroTag em sua versão pública ou na configuração mais ampla no módulo AgroTag360, possibilita que técnicos, pesquisadores e produtores coletem, validem e compartilhem informações padronizadas por meio de dispositivos móveis, com registro automático de coordenadas GPS.
Os dados são armazenados em um banco nacional unificado, contribuindo para a certificação de práticas agrícolas, o mapeamento de níveis de manejo e a rastreabilidade das áreas produtivas. “Estamos começando o Agrotag–DRES em processos de manejo orientados pela agricultura regenerativa e pela melhoria contínua dos sistemas produtivos”, comenta Pimenta.
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Presença de raízes no solo – Henrique Debiasi – Copia
Sistemática limitadora
Luiz Vicente, geógrafo, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente e coordenador da Plataforma AgroTag destaca que, até recentemente, o DRES só podia ser implementado manualmente, utilizando planilhas e anotações manuais avulsas, na maioria dos casos em papel.
“Essa sistemática era altamente limitadora, considerando a possibilidade de erros durante o preenchimento, impossibilidade de novas consultas aos sistemas de manejo classificados, bem como um grande dispêndio de tempo para anotações e cálculos necessários durante o levantamento de campo”, sublinha o geógrafo.
Ele completa que “com o uso do AgroTag, os cálculos são feitos de maneira automática, o que praticamente elimina erros por preenchimento”.
Vicente ainda enfatiza que os dados de campo, incluindo a classificação das áreas de manejo são enviadas automaticamente para um sistema WebGis (sistema de dados geoespaciais on-line) onde podem ser consultados e analisados como uma base de dados única, compondo uma rede colaborativa de usuários.
A expectativa é que o uso da funcionalidade DRES no AgroTag amplie a adoção da ferramenta, tornando sua aplicação mais ágil e possibilitando, além da orientação ao produtor, análises mais robustas por meio do cruzamento com outras camadas de dados geoespaciais, constituindo-se num exemplo aplicado de transferência de Geotecnologias diretamente para o setor agrícola.








