Imagens atraentes e um empurrãozinho na curiosidade podem reduzir a neofobia alimentar — a resistência natural a experimentar comidas desconhecidas — e aumentar a intenção de compra de produtos à base de insetos (Foto: Ivan Alcântara/Embrapa)
Se a ideia de comer insetos ainda causa arrepio, a ciência brasileira tem boas notícias. Talvez o problema não esteja no alimento em si, mas na forma como ele é apresentado.
Uma pesquisa da Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ) mostra que mensagens certas, imagens atraentes e um empurrãozinho na curiosidade podem reduzir a neofobia alimentar — a resistência natural a experimentar comidas desconhecidas — e aumentar a intenção de compra de produtos à base de insetos.
O estudo foi publicado no Journal of Sensory Studies, com o título Sustainable Bites: can health goal framing and perceived sustainability reduce the impact of food neophobia on the intention to purchase insect-based products?.
Segundo o relatório OECD-FAO Agricultural Outlook 2021-2030, da OCDE e da FAO, as tendências atuais no consumo de proteína animal ampliam preocupações ambientais e podem acelerar a degradação dos recursos naturais.
O recado é que não basta mudar a produção de alimentos, é preciso também transformar hábitos. Nesse cenário, fontes alternativas de proteína, como vegetais e insetos, entram em cena como opções mais sustentáveis do que a carne convencional.
Por que biscoitos?
Para testar a aceitação do público, os pesquisadores apostaram em um produto familiar ao brasileiro: biscoitos. Um dos estudos incluiu a degustação de cookies feitos com farinha de insetos em um supermercado do Rio de Janeiro.
“A escolha por biscoitos levou em consideração que esse tipo de alimento é familiar no Brasil e diversos autores relatam a familiaridade como um fator que impulsiona não apenas a aceitação, mas também a disposição para experimentar e comprar produtos à base de insetos”, explica a pesquisadora da Embrapa Rosires Deliza.
Cerca de 51% dos produtos à base de insetos vendidos globalmente são snacks, como biscoitos, que superam outras categorias em potencial comercial.
No Brasil, o consumo diário per capita chega a 3,7 gramas de biscoitos doces e 6,8 gramas de salgados, segundo o IBGE. Ou seja, o hábito já existe, falta só mudar o ingrediente.
Texto mais imagem é um combo contra o preconceito
No chamado “Estudo 1”, os pesquisadores observaram que a combinação de mensagens explicativas com imagens do produto aumentou significativamente a intenção de compra. O efeito foi especialmente forte para quebrar a resistência inicial diante de um alimento não convencional.
Juntas, a imagem e a informação ajudam o consumidor a formar percepções mais positivas, reduzindo o estranhamento e aumentando a confiança.
Já o “Estudo 2” foi além e investigou se enfatizar prazer sensorial ou benefícios à saúde faria diferença. De novo, texto e imagem caminharam juntos, alinhados às motivações individuais.
Segundo a doutoranda da UFRRJ Karen Romano, o resultado foi claro.
“Os consumidores expostos às informações relacionadas à saúde não apenas demonstraram maior intenção de comprar os biscoitos, mas também os notaram como mais sustentáveis, sugerindo que informar tais benefícios pode servir como poderoso motivador, potencialmente superando a novidade ou o desconhecimento do produto, principalmente, quando os consumidores estão preocupados com a sustentabilidade”.
Em outras palavras: falar de saúde pode fazer o consumidor enxergar sustentabilidade, mesmo quando o ingrediente principal ainda causa estranheza.

Segundo a pesquisadora, os dados podem ajudar o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) a estruturar uma futura legislação para alimentos à base de insetos no BrasilFoto: Ivan Alcântara/Embrapa
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Da prateleira à legislação
Os impactos do estudo não param no marketing. Segundo Deliza, os dados podem ajudar o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) a estruturar uma futura legislação para alimentos à base de insetos no Brasil.
“É importante ressaltar que os insetos são criados especificamente para esse fim, de forma higiênica e com controle microbiológico, uma vez que não se pode expor o consumidor a nenhum risco”, afirma.
“Além disso, as informações dessa pesquisa podem ser úteis para profissionais de marketing, desenvolvedores de produtos e formuladores de políticas focados na promoção de opções alimentares sustentáveis e na expansão do mercado de alimentos à base de insetos”, afirma.
Para especialistas, o caminho passa por comunicação equilibrada, campanhas educativas, degustações e embalagens que destaquem benefícios nutricionais e ambientais.
Do lado das políticas públicas, diretrizes claras para processamento, rotulagem e marketing são essenciais para aumentar a confiança do consumidor — além de incentivos à pesquisa e inovação.








