Saldo deve ser positivo para frutas, carnes, café e etanol e novos produtos. Mas texto final possui cotas restritas e instrumentos que podem limitar a expansão das exportações brasileiras. Na imagem, líderes do Mercosul com representantes da bloco europeu (Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República)
Após mais de 25 anos de negociações, o anúncio do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia foi recebido com uma combinação de expectativa, cautela e críticas pelo agronegócio brasileiro.
O entendimento, anunciado na última semana e com assinatura prevista para o próximo sábado (17/1), no Paraguai, ainda depende da aprovação do Parlamento Europeu para entrar em vigor.
Mesmo assim, já provoca intensos debates no setor produtivo, especialmente sobre o real alcance da abertura de mercado e as barreiras mantidas pelo bloco europeu.
O acordo chega em um momento de instabilidade geopolítica global e sob forte pressão interna na Europa. Nos últimos meses, agricultores europeus intensificaram protestos contra a concorrência externa, enquanto governos do continente reforçaram políticas protecionistas e mecanismos de salvaguarda para proteger cadeias produtivas consideradas sensíveis.
Esse contexto explica por que, apesar do discurso de livre comércio, o texto final preserva cotas restritas e instrumentos que podem limitar a expansão das exportações brasileiras.
Para o governo brasileiro, o saldo é amplamente positivo.
O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, classificou o acordo como histórico e destacou seus efeitos diretos sobre o agronegócio, com potencial de geração de emprego, renda e investimentos.
“Vamos exportar quase tudo do agro à União Europeia com o acordo. Quem mais ganha é a sociedade”, disse Alckmin, ao ressaltar que a UE é o segundo maior parceiro comercial do Brasil no setor, atrás apenas da China.
Segundo ele, o impacto extrapola o eixo Mercosul–UE. “O agro vai ter aí um universo de 27 países, dos mais ricos do mundo, para poder vender o seu produto”, afirmou.
Avanço possível, não ideal

Para Senadora Tereza Cristina , as salvaguardas impostas pela União Europeia acendem um sinal de alerta. Foto: Jefferson Rudy Agência Senado
No Congresso, a avaliação é mais comedida. A vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e ex-ministra da Agricultura, Tereza Cristina (PP-MS) reconhece o avanço, mas frisa que o acordo ficou aquém do ideal para o setor. Para ela, as salvaguardas impostas pela União Europeia acendem um sinal de alerta.
“Abre portas e estabelece cotas, mas o livre comércio ainda está distante. Ainda mais com as novas salvaguardas impostas pela UE que significam ameaças injustas ao nosso agro”, comentou a senadora, que também é membro titular da Academia Nacional de Agricultura da Sociedade Nacional de Agricultura.
“Mesmo assim, o acordo pode se ajustar e abrir perspectivas comerciais para o Brasil. E trazer alternativas para nossas exportações na atual conjuntura protecionista global”, completou.
A leitura de que os ganhos serão graduais também é compartilhada por outro membro da Academia Nacional de Agricultrura, Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e embaixador da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).
Em entrevista ao Jornal da CBN, ele destacou que o impacto positivo tende a se consolidar no médio e longo prazo, à medida que as tarifas forem sendo reduzidas.
“Ao longo do tempo, de 10 a 15 anos, as tarifas diminuem, de modo que o processo ao nosso favor é muito interessante. Não é imediato, mas é interessante. De qualquer maneira, já podemos imaginar alguns capítulos, alguns temas agrícolas que podem crescer desde já. Temos a fruticultura, por exemplo, um setor que podemos avançar bastante, carnes também, café”
No curto prazo, porém, Rodrigues avalia que os benefícios serão limitados pelas restrições e salvaguardas agrícolas adotadas pela União Europeia no fim de dezembro. Ainda assim, ele vê oportunidades adicionais em biocombustíveis, como etanol e biodiesel, diante da transição energética europeia.
“A maior parte do agro brasileiro está preparado para competir com qualquer coisa do mundo. Outra parcela ainda precisa evoluir nas questões ambientais, nas questões sanitárias, mas estamos no bom caminho”.
Resistência europeia e salvaguardas
A França permanece como o principal foco de resistência ao acordo, pressionada por agricultores que temem perder espaço para produtos brasileiros.
Esse temor se traduziu em cotas e mecanismos de defesa. O acordo prevê, por exemplo, 99 mil toneladas de carne bovina com tarifa intracota de 7,5%, 180 mil toneladas de aves com tarifa zero, 25 mil toneladas de carne suína, além de limites para açúcar, etanol, arroz, mel e milho.
Caso os volumes exportados ultrapassem determinados patamares ou os preços do Mercosul fiquem significativamente abaixo dos europeus, salvaguardas podem ser acionadas.
A Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp) avalia o acordo como positivo, mas reforça a necessidade de equilíbrio.
Para o presidente da entidade, Tirso Meirelles, o cenário internacional pesou nas negociações.
“A questão do tarifaço imposto pelo governo norte-americano reforçou a importância de acordos bilaterais que permitam uma maior capilaridade do comércio internacional brasileiro”, afirmou.
Sobre as salvaguardas exigidas por países como França e Itália, ele pondera que “não estão erradas, pois pretendem proteger as cadeias produtivas locais”, mas cobra postura semelhante do Brasil em defesa de seus produtores, citando a falta de políticas internas, crédito, seguro rural e juros elevados.
Minas Gerais, principal estado exportador do agronegócio brasileiro para a União Europeia, vê o acordo como um reforço relevante às suas cadeias produtivas. Em 2025, o estado exportou cerca de US$ 6 bilhões em produtos agropecuários ao bloco.
O secretário-adjunto de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, João Ricardo Albanez, avalia que, apesar de o tratado ainda precisar passar pelo Parlamento Europeu, o sinal político é positivo.
“Essa aprovação ainda tem que passar pelo parlamento, mas a sinalização é muito positiva, porque só tivemos cinco países que se manifestaram contra”, disse Albanez.
Segundo ele, A UE é o segundo maior bloco importador dos produtos agropecuários mineiros, atrás somente da Ásia.
“Esse acordo abrange um mercado de mais de 700 milhões de pessoas e isso fortalece as nossas cadeias produtivas que já demonstram capacidade competitiva, diversificação produtiva e alinhamento às exigências do mercado europeu”, afirmou.
Setores com ganhos claros

CitrusBR estima que o acordo pode gerar economia de até US$ 320 milhões em cinco anos para os exportadores brasileiros de suco de laranja. Foto: CitrusBr/Divulgação
Alguns segmentos do agro veem benefícios mais concretos.
A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) destacou o potencial de expansão no mercado europeu.
“O acordo abre novas oportunidades para os setores produtivos, incluindo a agroindústria de açúcar e bioenergia. Esse pacto permitirá ao Brasil expandir sua presença no mercado europeu, com potencial significativo para a diversificação das exportações e o aumento da competitividade do setor sucroenergético, que segue comprometido com a produção sustentável e a economia de baixo carbono”, afirmou a entidade.
No setor de proteínas animais, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) avalia que o acordo aumenta a previsibilidade comercial. Para o frango, haverá um novo contingente tarifário adicional de 180 mil toneladas anuais isentas de tarifa, compartilhadas entre os países do Mercosul, implantadas de forma gradual.
Para a carne suína, o acordo cria, pela primeira vez, uma cota preferencial de 25 mil toneladas, com tarifa reduzida. Ovos e albuminas também passam a contar com contingentes específicos.
A entidade ressalta, porém, que os impactos serão graduais e condicionados ao cumprimento rigoroso das exigências sanitárias e ambientais.
O setor citrícola é um dos mais otimistas. A CitrusBR estima que o acordo pode gerar economia de até US$ 320 milhões em cinco anos para os exportadores brasileiros de suco de laranja, produto do qual o Brasil é líder mundial e que tem na União Europeia seu principal destino, responsável por cerca de 40% dos embarques.
Na fruticultura, a Abrafrutas comemora a possibilidade de tarifa zero para uvas do Vale do São Francisco já na entrada em vigor do tratado.
“A partir do momento em que o import duty for zerado para os exportadores brasileiros, estaremos em uma situação mais justa em relação aos produtores da África do Sul, Chile, Peru e Estados Unidos, que já não pagam esse imposto. Outras frutas, como melancia e melão, terão suas tarifas zeradas dez anos após o acordo entrar em vigor. O tratado traz benefícios diretos para exportadores e consumidores”, afirmou o presidente da entidade, Guilherme Coelho.
No setor cafeeiro, o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) avalia que o acordo deve favorecer especialmente os cafés industrializados, uma vez que o café verde já entra na União Europeia sem tarifa.
Com o tratado, produtos como café solúvel terão redução tarifária gradual até zerar em quatro anos.
“Os cafés solúveis e industriais brasileiros terão redução anual da taxação que recebem até chegar a zero, em quatro anos, o que permitirá que o Brasil amplie a competitividade na União Europeia”, afirmou o diretor-geral do Cecafé, Marcos Matos.
Segundo ele, a medida estimula a agregação de valor, amplia a competitividade do Brasil no bloco e cria incentivos para novos investimentos na indústria cafeeira.
Críticas e preocupações regionais

Lucas Beber, presidente da Aprosoja Mato Grosso. Foto: Waldemir Barreto/Agencia Senado
Nem todos os setores, porém, veem ganhos imediatos. A Sociedade Rural Brasileira (SRB) considera o acordo maduro e estrategicamente relevante, mas avalia que os impactos econômicos diretos serão limitados, já que o foco do agro brasileiro está hoje na Ásia, Oceania, África e Oriente Médio.
Ainda assim, a entidade destaca o valor geopolítico do entendimento, ao ampliar a integração internacional do Mercosul.
Em Mato Grosso, a avaliação é mais crítica. O presidente da Aprosoja-MT, Lucas Beber, afirma que o acordo traz mais ameaças do que benefícios imediatos para produtores de grãos. Segundo ele, a União Europeia mantém barreiras ambientais que colocam o Brasil em desvantagem competitiva.
“Apesar do discurso de livre comércio, a Europa mantém exigências que não existem em seus próprios países”, afirmou.
A principal preocupação é o Regulamento Europeu Antidesmatamento, que pode restringir compras mesmo de áreas legalmente abertas após 2020.
A Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) também aponta riscos, citando salvaguardas, restrições ambientais e sanitárias e o que classifica como “baixa assertividade” do governo brasileiro diante de medidas unilaterais europeias.
Ainda assim, reconhece que, no papel, cerca de 93% das linhas tarifárias da UE estarão isentas de tarifas em até dez anos.
O Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva) afirma que, embora sempre tenha defendido a assinatura do tratado como instrumento de integração econômica, não há impacto prático imediato para os produtores nacionais de azeite de oliva.
Segundo a entidade, desde março de 2025 os azeites europeus já entram no Brasil com alíquota zero, o que invalida a expectativa de redução de preços ao consumidor.
O instituto também contesta a ideia de melhora na qualidade do produto importado, afirmando que o país segue recebendo “refugo do mercado europeu”, muitas vezes rotulado como extravirgem sem atender aos critérios técnicos.
Em contraposição, destaca que o azeite brasileiro é “verdadeiramente extravirgem, de qualidade premium”, fruto de rigor técnico e rastreabilidade.
Para o Ibraoliva, o desafio central é a falta de reciprocidade, já que produtores europeus contam com subsídios e incentivos, enquanto o setor nacional enfrenta alta carga tributária e ausência de políticas públicas de fomento.
Estratégia de longo prazo
Para a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), o acordo tem importância estratégica para ambos os blocos, ao reforçar a segurança alimentar e energética europeia e consolidar o Mercosul como potência agroambiental.
Segundo o presidente da entidade, Ingo Plöger, o entendimento cria um arcabouço jurídico favorável a novas agendas de cooperação.
“Abrem-se oportunidades nas áreas de novos combustíveis e tecnologias de processos industriais, com mais cooperação do que competição, integração de inovações em serviços digitais e fortalecimento dos instrumentos da democracia. Mais mercado, melhor cooperação e maior participação do setor privado no desenvolvimento sustentável”, afirmou.
A avaliação do acordo também mobiliza cadeias menos centrais nas negociações comerciais.
A piscicultura, especialmente a produção de tilápia, também vê no acordo uma oportunidade estratégica de médio prazo. Para Juliano Kubitza, diretor do maior projeto de piscicultura do Estado de São Paulo, a União Europeia desponta como um dos mercados mais promissores para diversificação das exportações brasileiras.
“Estou otimista de que esse importante mercado se abrirá novamente. Embora a tilápia ainda não seja referência de consumo no bloco europeu, o conjunto de atributos da produção nacional, como regularidade de oferta, padrões sanitários elevados e processamento industrial consistente, coloca o Brasil em posição privilegiada para avançar”, afirmou.
Cotas e tratamentos específicos

Entre as principais concessões estão a carne bovina, com cota de 99 mil toneladas peso carcaça. Foto: Abiec/Divulgação
O acordo Mercosul–União Europeia estabelece uma ampla liberalização comercial, mas preserva cotas e tratamentos específicos justamente nos segmentos mais sensíveis do agronegócio.
A UE eliminará tarifas sobre cerca de 95% dos bens, mas aproximadamente 3% dos produtos — concentrados em itens agrícolas e agroindustriais — permanecerão sujeitos a cotas ou regimes diferenciados.
Entre as principais concessões estão a carne bovina, com cota de 99 mil toneladas peso carcaça, tarifa intracota de 7,5% e crescimento linear em cinco anos, além da eliminação imediata da tarifa da Cota Hilton (10 mil toneladas).
Para aves, foi fixado um contingente de 180 mil toneladas com tarifa zero, enquanto a carne suína terá, pela primeira vez, uma cota preferencial de 25 mil toneladas, com tarifa intracota de € 83 por tonelada.
Esses volumes refletem a tentativa europeia de ampliar o acesso ao mercado, sem expor totalmente seus produtores à concorrência brasileira.
Outros produtos relevantes do agro brasileiro também terão acesso condicionado. O acordo prevê 180 mil toneladas de açúcar com tarifa zero na entrada em vigor, além de cotas para etanol, que somam 450 mil toneladas para uso industrial sem tarifa e 200 mil toneladas para outros usos, com tarifa reduzida.
Produtos como arroz (60 mil toneladas), mel (45 mil toneladas) e milho e sorgo (1 milhão de toneladas) entram com tarifa zero intracota, enquanto o suco de laranja terá desgravação em prazos de 7 a 10 anos ou margem de preferência de 50%, a depender do tipo do produto.
No segmento de bebidas, a cachaça terá liberalização total para garrafas de até dois litros em quatro anos, além de uma cota de 2.400 toneladas para produto a granel.
Já frutas como abacate, limão, lima, melão, melancia, uva de mesa e maçã não estarão sujeitas a cotas e terão tarifas integralmente eliminadas, configurando uma das aberturas mais amplas do acordo.
Em termos de comércio, a União Europeia já ocupa posição central para o agronegócio brasileiro. Em 2025, o Brasil exportou US$ 49,8 bilhões ao bloco, com destaque para combustíveis, óleos e ceras minerais (22%), café, chá e especiarias (14,7%), alimentos para animais (8,3%), sementes e frutos oleaginosos (5,2%), além de vegetais, frutas e carnes, que juntos somam parcela relevante da pauta agroexportadora.
Do outro lado, o Brasil importou US$ 50,3 bilhões da UE, principalmente máquinas, produtos farmacêuticos e químicos.
Esse perfil evidencia que, embora o acordo amplie oportunidades para produtos agrícolas brasileiros, os ganhos efetivos dependerão do aproveitamento das cotas, da redução gradual das tarifas e da capacidade do setor de atender às exigências sanitárias e ambientais impostas pelo mercado europeu.
Redação A Lavoura








