João Souza Neto
Maria Chan
O agronegócio brasileiro sempre conviveu com riscos. Clima, variações de mercado, logística, crédito e câmbio fazem parte da rotina de quem produz. No entanto, nos últimos anos, uma nova camada de risco passou a impactar diretamente o setor: o risco digital e cibernético. Diferentemente dos riscos tradicionais, esse novo tipo de ameaça é silencioso, rápido e, muitas vezes, invisível até o momento em que já causa danos significativos.
A transformação digital do agro é irreversível. Fazendas conectadas, uso de drones, sensores, sistemas de gestão, plataformas digitais de comercialização e integração com cadeias logísticas tornaram a produção mais eficiente, mas também mais dependente de tecnologia. Hoje, uma interrupção nos sistemas digitais pode ter impacto direto na colheita, na armazenagem e na distribuição/entrega da produção. Em outras palavras, o agro deixou de ser apenas físico — tornou-se cada vez mais digital.
A natureza dos riscos evoluiu
Empresas do setor são altamente eficientes em operação, mas ainda pouco preparadas para lidar com falhas tecnológicas ou ataques cibernéticos. A pergunta que poucos fazem é simples e direta: o que acontece quando o sistema ou o maquinário para? Ou quando um ataque bloqueia o acesso aos dados? Ou ainda quando informações estratégicas são expostas?
Dados recentes ajudam a dimensionar o problema
Segundo o FBI Internet Crime Report 2025, foram registrados mais de 1 milhão de incidentes cibernéticos no mundo, com prejuízos superiores a 20 bilhões de dólares — um aumento de 26% em relação ao ano anterior. O setor de alimentos e agricultura figura entre os mais afetados, ocupando a sétima posição entre os setores de infraestrutura crítica mais afetados nos Estados Unidos.
No caso específico do ransomware, um dos ataques mais comuns atualmente, houve um crescimento consistente nos últimos anos, com mais de 3.600 ocorrências registradas em 2025. Esse tipo de ataque é particularmente crítico para o agronegócio. Diferentemente de outros setores, o agro opera com janelas operacionais rígidas. Plantio e colheita não podem ser adiados indefinidamente.
Uma paralisação de poucos dias pode comprometer toda uma safra.
NO AGRO, O TEMPO DE RESPOSTA PODE SER TÃO IMPORTANTE QUANTO A PRÓPRIA PRODUÇÃO.
Estudos indicam que ataques de ransomware podem provocar interrupções superiores a uma semana, além de gerar prejuízos financeiros que frequentemente ultrapassam o valor do resgate (ransom) exigido. Somam-se a isso riscos regulatórios, danos à reputação e impactos em toda a cadeia produtiva.

A transformação digital ampliou a eficiência do agronegócio, mas também tornou as operações mais dependentes de sistemas, dados e conectividade.
O agro digital em números
- Mais de 1 milhão de incidentes cibernéticos registrados em 2025
- US$ 20 bilhões em prejuízos globais
- Setor agroalimentar entre os mais afetados
- Mais de 3.600 ataques de ransomware registrados em 2025
A lacuna na preparação
Apesar da gravidade, muitas organizações, ao enfrentarem incidentes, ainda operam sem uma abordagem técnica e processos maduros, o que representa um risco significativo no ambiente digital.
Quando um incidente ocorre:
- Decisões são tomadas sob pressão.
- Responsabilidades não estão claras.
- Informações são insuficientes.
- O tempo de resposta aumenta.
O resultado? Ampliação dos impactos e maior vulnerabilidade. É nesse ponto que uma mudança de perspectiva se torna fundamental.
Governança como mecanismo de resiliência
Empresários não adotam governança corporativa por interesse em conceitos abstratos. O que buscam é garantir que a operação continue funcionando, que os compromissos sejam cumpridos e que o negócio permanaça sustentável, mesmo diante de situações adversas. E isso só é possível com preparação. Preparar-se para incidentes não significa eliminar riscos — algo impossível —, mas reduzir impactos e aumentar a capacidade de resposta. Isso envolve entender como a organização funciona em condições normais e como deve funcionar quando algo dá errado. A forma como a empresa atua nesses dois cenários define seu nível de maturidade.
MATURIDADE NÃO É EVITAR INCIDENTES.
É SABER RESPONDER QUANDO ELES ACONTECEM.
Nesse contexto, a governança assume um papel central, embora ainda seja frequentemente mal compreendida.
NA PRÁTICA, GOVERNANÇA NÃO É BUROCRACIA, E SIM ORGANIZAÇÃO.
Significa estabelecer regras claras, definir responsabilidades, estruturar processos e garantir que as decisões sejam tomadas de forma coordenada, mesmo sob pressão. É o que permite que uma organização funcione de forma consistente, especialmente em momentos de crise.
No agronegócio, essa necessidade é ainda mais evidente devido às características próprias do setor. As operações são distribuídas geograficamente, a dependência tecnológica cresce, as cadeias produtivas são altamente integradas e dependentes, e a conectividade nem sempre é estável. Além disso, há forte dependência de terceiros, como fornecedores, transportadoras e parceiros comerciais. Esse conjunto de fatores aumenta a exposição a riscos e torna a coordenação ainda mais desafiadora.
A capacidade de antecipar riscos, coordenar respostas e manter a continuidade das operações torna-se um diferencial estratégico.
Como se preparar
Estar preparado significa conhecer os ativos críticos, identificar riscos, estabelecer planos de resposta, treinar equipes e testar processos. Envolve também garantir mecanismos de continuidade de negócios e de recuperação de sistemas e dados, de modo que a operação possa ser mantida ou rapidamente restabelecida.
Além disso, exige investimento em cultura organizacional, pois pessoas preparadas são essenciais para qualquer estratégia de segurança.
A governança atua como elemento integrador desses componentes. Sem ela, cada área reage de forma isolada, não há priorização adequada e os esforços se tornam fragmentados. Com governança, há alinhamento, coordenação e capacidade de resposta unificada estruturada. Isso não apenas reduz riscos, mas também aumenta a eficiência e a confiança na organização.
Outro ponto importante é o custo de não agir. Muitas empresas ainda operam sob a lógica de que “nunca aconteceu comigo”. No entanto, a pergunta relevante não é se um incidente vai ocorrer, mas quando. E, principalmente, qual será o impacto. O custo da inação pode ser muito superior ao investimento necessário para a preparação.
A boa notícia é que começar não depende, necessariamente, de grandes investimentos ou da adoção de novas tecnologias.
Exemplos de impactos operacionais
Ransomware durante a colheita
- Logística interrompida
- Atrasos na distribuição
- Perdas operacionais
Vazamento de dados comerciais
- Exposição de contratos
- Perda de competitividade
- Impacto reputacional
Falhas em sistemas críticos
- Paralisação da operação
- Dificuldade de coordenação
- Recuperação mais lenta
O primeiro passo é compreender o cenário atual, identificar os riscos existentes, conhecer os ativos críticos e e definir prioridades. A partir daí, a organização pode evoluir de forma estruturada, implementando práticas que fortaleçam gradualmente sua capacidade de resposta e seu nível de maturidade.

Em um agro cada vez mais interconectado, uma interrupção digital pode propagar impactos por toda a cadeia produtiva.
GOVERNANÇA NÃO É IMPROVISO.
Os conceitos podem ser explicados de forma simples. A avaliação de riscos, a definição de prioridades e a estruturação de mecanismos de continuidade exigem métodos estruturados e práticas consolidadas.
PERCEBER RISCOS É APENAS O PRIMEIRO PASSO.
Transformar percepções em decisões exige método, critérios, consistência, rastreabilidade e fundamentação.
O agro brasileiro e sua capacidade de inovação e eficiência
O agronegócio brasileiro é reconhecido mundialmente por sua capacidade de inovação e eficiência. No entanto, a continuidade desse sucesso depende cada vez mais da capacidade de lidar com riscos digitais. A transformação em curso exige não apenas tecnologia, mas também organização e preparo. No cenário atual, não é mais possível tratar os riscos, a segurança e a continuidade como temas secundários. Eles são parte essencial da estratégia de qualquer empresa do setor. Afinal, produzir bem já não é suficiente. É preciso garantir que a produção não seja interrompida, mesmo diante de adversidades. No fim das contas, a diferença entre empresas vulneráveis e resilientes não está na ausência de problemas, mas na forma como lidam com eles. Enquanto algumas dependem do improviso, outras se estruturam para responder com rapidez e eficiência. E é essa capacidade que define quem está preparado para o futuro. Em um ambiente cada vez mais digital e hiperconectado, a mensagem é clara: no agro moderno, a resiliência não é opcional — é condição para a continuidade do negócio.
Sobre a ARKHION Advisors
A ARKHION Advisors apoia organizações no fortalecimento da governança, da gestão de riscos e da continuidade organizacional, contribuindo para a construção de maior resiliência em ambientes cada vez mais interconectados.








