Revisão científica alerta sobre os impactos esses contaminantes no desenvolvimento do cérebro desde a gestação e reforça a necessidade de uma abordagem integrada entre saúde humana, animal e ambiental
Uma ameaça silenciosa, presente na água que bebemos, nos alimentos que consumimos e até no ar que respiramos, pode estar redefinindo os limites da saúde como a conhecemos. Trata-se dos micro e nanoplásticos — partículas extremamente pequenas geradas pela fragmentação de resíduos plásticos maiores — que vêm sendo cada vez mais associadas a riscos ao desenvolvimento humano desde a fase inicial da vida.
Uma revisão científica publicada recentemente na revista Reproductive Toxicology reúne evidências de que a exposição a essas partículas durante períodos críticos do desenvolvimento pode interferir na chamada diferenciação sexual do cérebro. Esse processo, que ocorre principalmente durante a gestação e nos primeiros anos de vida, é responsável por organizar circuitos cerebrais ligados ao funcionamento hormonal, ao comportamento e à saúde reprodutiva ao longo de toda a vida.
O alerta reforça a urgência de adotar o conceito de Saúde Única, uma abordagem que reconhece que a saúde humana está profundamente conectada à saúde dos animais e do meio ambiente. A poluição plástica é um exemplo claro dessa interdependência: o plástico descartado no ambiente se fragmenta, se espalha por solos, rios e oceanos, entra na cadeia alimentar e acaba retornando ao corpo humano de formas cada vez mais complexas — e potencialmente perigosas.

Da gravidez a puberdade: quando o cérebro é mais vulnerável aos micro e nano plásticos Ilustração Embrapa/Divulgação
Consequências permanentes
Arielle Cristina Arena, pesquisadora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Botucatu e coordenadora do estudo explica que “a diferenciação sexual do cérebro ocorre em janelas extremamente sensíveis do desenvolvimento. A exposição a contaminantes ambientais nesse período pode ter consequências permanentes”, afirma.
Segundo a pesquisadora, a revisão científica analisou estudos realizados com modelos animais e culturas de células, que indicam que os micro e nanoplásticos podem atuar como desreguladores endócrinos — substâncias capazes de interferir na ação dos hormônios. Essas partículas já foram encontradas em tecidos humanos importantes, como a placenta, o que confirma que o feto pode ser diretamente exposto a esses contaminantes ainda no útero.
Arielle salienta que há indícios de que essas partículas conseguem ultrapassar barreiras naturais do organismo. “Os plásticos de tamanho micro, com menos de 5 milímetros, e nano, ainda menores — invisíveis a olho nu — já foram detectados em diversos tecidos humanos, incluindo a placenta, reforçando a hipótese de exposição direta do feto durante a gestação”, informa.
Ela destaca ainda que essas partículas podem atravessar a barreira hematoencefálica, estrutura que funciona como um filtro de proteção do cérebro contra substâncias nocivas presentes no sangue. “Esse achado aumenta a preocupação sobre os efeitos diretos dos micro e nanoplásticos no sistema nervoso em formação”, alerta a especialista.

Micro e nanoplásticos são partículas extremamente pequenas geradas pela fragmentação de resíduos plásticos maiores
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Evidências científicas e lacunas de pesquisa
De acordo com os autores da pesquisa, os micro e nanoplásticos podem se acumular no cérebro em desenvolvimento e interferir em processos regulados por hormônios sexuais, como estrogênio e testosterona, além de afetar sinais do sistema imunológico que também participam da organização cerebral. Esses processos são essenciais para a formação de circuitos neurais que diferenciam padrões biológicos entre machos e fêmeas.
Entre os mecanismos identificados nos estudos analisados estão o estresse oxidativo — um desequilíbrio que danifica as células —, a neuroinflamação, a morte celular programada (apoptose) e alterações na comunicação entre neurônios, conhecida como transmissão de neurotransmissores.
“Esses mecanismos são especialmente preocupantes porque estão diretamente envolvidos na organização sexual do cérebro, que influencia não apenas a reprodução, mas também comportamentos sociais e funções cognitivas”, observam os pesquisadores.
Arielle enfatiza que, apesar dos alertas, a revisão destaca que ainda há uma carência de dados diretos em seres humanos. “Grande parte das evidências disponíveis vem de estudos experimentais, e poucos trabalhos consideram de forma explícita as diferenças entre os sexos, o que limita a extrapolação dos resultados para a população humana”, ressalta.

Dispersos em oceanos, solos e na atmosfera, os fragmentos de plástico são ingeridos por animais, entram na cadeia alimentar e acabam alcançando os seres humanos
Riscos na origem: o desenvolvimento do cérebro desde a gestação
Cândida Kassuya, pesquisadora da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) completa que a diferenciação sexual do cérebro depende fortemente de sinais hormonais em momentos muito específicos do desenvolvimento, especialmente no ambiente intrauterino e nos primeiros anos de vida. “Nesse contexto, os micro e nanoplásticos podem atuar não apenas como desreguladores hormonais, mas também como agentes epigenéticos, capazes de alterar a forma como os genes são ativados ou desativados ao longo do tempo”, afirma.
Ela orienta que “interferências sutis em hormônios como estrogênio e testosterona, mesmo em concentrações baixas, podem reprogramar circuitos cerebrais fundamentais, com efeitos que só se manifestam mais tarde, na adolescência ou na vida adulta.
De acordo com a especialista, os estudos analisados apontam alterações em áreas específicas do cérebro, como núcleos do hipotálamo, região responsável por regular funções essenciais como reprodução, comportamento sexual e o funcionamento do eixo hipotálamo–hipófise–gonadal, sistema que coordena a produção hormonal no organismo.

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Saúde Única: do ambiente ao cérebro em formação
Hamilton Hisano, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente explica que a trajetória dos micro e nanoplásticos, do ambiente até o cérebro em desenvolvimento, ilustra de forma clara como a degradação ambiental se traduz em riscos diretos à saúde humana. “Dispersos em oceanos, solos e na atmosfera, esses fragmentos são ingeridos por animais, entram na cadeia alimentar e acabam alcançando os seres humanos”, informa o cientista.
Ele relaciona esses achados ao conceito das Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença (DOHaD), que propõe que exposições ambientais precoces podem influenciar o risco de doenças ao longo da vida. “Embora os dados em humanos ainda sejam preliminares, a revisão sugere que exposições ambientais amplamente disseminadas podem afetar sistemas biológicos fundamentais, com implicações importantes para a saúde pública”, afirma Hisano.
Na visão do pesquisador, essa perspectiva reforça que a poluição plástica vai além de um problema de descarte de resíduos. “Trata-se de uma questão de saúde pública global, cujos impactos podem estar moldando a saúde neurológica e reprodutiva das próximas gerações”, alerta.
Importantes desafios
Hisano destaca que ainda há desafios importantes para a pesquisa científica. “É urgente desenvolver métodos mais precisos para medir a exposição real a micro e nanoplásticos em seres humanos, considerando o tipo de partícula, seu tamanho e a dose absorvida”, explica o especialista.
Arielle, por sua vez, defende a realização de estudos de longo prazo, que acompanhem indivíduos desde a gestação, considerem o sexo como variável biológica e utilizem abordagens integradas que avaliem múltiplos sistemas do organismo. “Sem esse tipo de desenho experimental, continuaremos subestimando riscos potenciais”, adverte.

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A importância da pesquisa multidisciplinar
A complexidade dos efeitos associados aos micro e nanoplásticos exige uma resposta científica baseada na colaboração entre diferentes áreas do conhecimento. O estudo é um exemplo dessa abordagem integrada, reunindo pesquisadores de diversas instituições.
Liderado por Arielle Cristina Arena, o trabalho conta também com a participação de Bárbara Campos Jorge, Beatriz de Matos Manoel e Julia Stein, do Laboratório de Toxicologia de Produtos Naturais e Sintéticos da Unesp. A equipe inclui ainda Cândida Leite Kassuya, da UFGD, e Hamilton Hisano, da Embrapa Meio Ambiente.
Essa articulação permite conectar a poluição ambiental aos efeitos diretos na saúde humana — um elo central da abordagem de Saúde Única. Enquanto as universidades contribuem com o conhecimento sobre os mecanismos biológicos e fisiológicos afetados pelos contaminantes, a Embrapa aporta uma visão sistêmica sobre a dispersão desses poluentes no ambiente e na cadeia alimentar.
Um chamado à ação: ciência, política e sociedade
Apesar do avanço das evidências científicas, os pesquisadores reconhecem que ainda existem lacunas importantes, especialmente a falta de estudos de longo prazo em humanos. “É urgente desenvolver métodos mais precisos para medir a exposição real a micro e nanoplásticos em seres humanos”, reforça Hisano.
O estudo termina com um chamado à ação que vai além do meio acadêmico. Para os autores, a presença onipresente dos plásticos exige uma resposta coordenada entre ciência, políticas públicas e sociedade. Isso inclui a adoção de medidas mais rigorosas para o controle da poluição plástica e a proteção de grupos mais vulneráveis, como gestantes, fetos e crianças.
A ameaça representada pelos micro e nanoplásticos ao desenvolvimento cerebral reforça uma mensagem central: a saúde do planeta e a saúde humana são inseparáveis. Apenas uma abordagem integrada, baseada no conceito de Saúde Única, será capaz de enfrentar desafios tão complexos e interconectados. “Trata-se de uma questão científica, ambiental e de políticas públicas”, conclui Arielle.








