Estudo mostra que em vez de impor sua presença, como seria esperado de um predador de topo de cadeia, é a própria onça que evita os locais por onde os cães passaram, evidenciando um impacto silencioso da ocupação humana sobre os ecossistemas
(Foto: Wikimedia)
A relação entre cães e onças em áreas rurais vai muito além dos eventuais ataques a animais domésticos ou dos conflitos que costumam ganhar destaque no noticiário.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Unesp revela que a simples circulação de cães de propriedades rurais em áreas naturais já é suficiente para alterar o comportamento da onça-parda, um dos principais predadores da fauna brasileira.
Em vez de impor sua presença, como seria esperado de um predador de topo de cadeia, é a própria onça que evita os locais por onde os cães passaram, evidenciando um impacto silencioso da ocupação humana sobre os ecossistemas.
Publicado na revista Biological Conservation, o estudo analisou a interação entre cães domésticos de vida livre e onças-pardas em duas unidades de conservação do interior de São Paulo, a Estação Ecológica de Santa Bárbara e a Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara.
Os pesquisadores utilizaram 67 armadilhas fotográficas distribuídas pelas áreas protegidas e registraram, entre 2014 e 2015, 300 eventos envolvendo cães e 194 registros de onças-pardas.
Os resultados chamaram a atenção da equipe. Após a passagem de um cão, a onça-parda levava, em média, 74 horas para retornar ao mesmo local e somente retomava seu padrão habitual de uso da área entre cinco e seis dias depois.
Segundo a bióloga Rita Bianchi, professora da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Unesp, em Jaboticabal, a pesquisa surgiu após o aumento da presença de cães dentro das unidades de conservação monitoradas pelo grupo.
“Em algumas unidades de conservação percebemos que, a cada nova amostragem, aumentava o número de registros de cães. Isso despertou nossa preocupação. Queríamos entender por que eles estavam ocupando essas áreas e quais consequências isso poderia trazer para a fauna nativa”, afirma.
Predador que evita o conflito

Flagrante feito por armadilhas fotográficas. Foto: Rodolpho Gonçalves da Silva, Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp
A expectativa inicial dos pesquisadores era de que a onça-parda, por ocupar o topo da cadeia alimentar, dominasse naturalmente os espaços compartilhados com os cães. Mas ocorreu justamente o contrário.
“Como um amante de grandes felinos, eu achava que a onça parda ia impor respeito e controlar a área. Os cães poderiam ser uma ameaça para animais pequenos, mas quando chegasse um animal maior o cenário ia mudar. Então foi uma surpresa quando rodamos a análise e vimos que as onças demoravam para voltar a uma determinada área depois da passagem dos cães”, relata Rodolpho Gonçalves da Silva, primeiro autor do estudo e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp.
Os registros mostram que cães e onças utilizam os mesmos ambientes, porém em horários distintos. Enquanto os cães concentram sua atividade durante o dia — coincidindo com os períodos de maior movimentação humana —, as onças permanecem predominantemente ativas ao entardecer e durante a noite.
Esse desencontro reduz a ocorrência de confrontos diretos, mas não elimina os efeitos da presença dos cães sobre o comportamento do felino.
O peso da “paisagem do medo”
Para os pesquisadores, o aspecto mais relevante da descoberta é mostrar que um impacto ambiental não depende necessariamente de ataques ou mortes de animais silvestres.
“A gente costuma imaginar que um problema para a fauna acontece quando existe ataque ou predação. Mas o animal não precisa ser ferido para sofrer consequências. Se ele deixa de usar uma área de boa qualidade, passa a gastar mais energia procurando alimento ou utilizando um ambiente menos adequado, isso também reduz sua qualidade de vida”, explica Rodolpho.
Na ecologia, esse fenômeno é conhecido como “paisagem do medo”. Basta a possibilidade de encontrar um risco para que um animal altere seus deslocamentos, horários de atividade e locais de alimentação.
“Nós percebemos que a simples presença do cão faz com que a onça deixe de usar uma área que poderia ser boa para caça e passe a utilizar ambientes menos favoráveis. Esse impacto indireto pode ser tão importante quanto uma interação direta”, afirma.
Os pesquisadores ainda investigam o que leva a onça-parda a evitar esses ambientes. Uma das hipóteses é que os cães funcionem como indicadores da presença humana — algo que os grandes felinos aprenderam a evitar ao longo do tempo. Outra possibilidade é que o comportamento dos próprios cães gere incerteza para as onças.
Apesar de um cão isolado representar pouco risco, Bianchi destaca que esses animais frequentemente circulam em grupos, formando matilhas, o que aumenta o potencial de confronto.
O problema começa nas propriedades rurais

Cães oriundos de propriedades rurais circulam sem controle em unidades de conservação. Foto: Rodolpho Gonçalves da Silva, Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp
Embora o estudo tenha sido realizado dentro de unidades de conservação, os cães observados pertencem, em sua maioria, a propriedades rurais do entorno.
“Esse não é um cachorro que mora na mata. Ele tem uma fonte de alimento e um lugar para voltar. Mas passa o dia explorando, andando por estradas, plantações e fragmentos de vegetação. O problema não é o animal em si, mas o fato de ele circular sem supervisão”, afirma Rodolpho.
Além de influenciar o comportamento da fauna, esses cães podem competir por alimento com animais silvestres, formar matilhas, transmitir doenças e atuar como vetores de patógenos entre a fauna e os próprios animais domésticos.
Os pesquisadores ressaltam que os impactos observados refletem um conjunto maior de transformações provocadas pela ocupação humana da paisagem, como a expansão agrícola, a abertura de estradas, a fragmentação da vegetação e a redução dos remanescentes naturais.
“A onça-parda consegue sobreviver em paisagens agrícolas desde que ainda existam fragmentos de vegetação nativa. O problema é que esses fragmentos estão ficando cada vez menores e mais cercados por atividades humanas”, afirma Rita Bianchi.
Ela avalia que, embora a caça tenha diminuído nas últimas décadas, novas pressões ameaçam a conservação da espécie.
“O cenário atual talvez seja mais preocupante a médio e longo prazo. A presença crescente de pessoas, cães, rodovias e a perda de vegetação podem representar uma nova pressão sobre as populações de onça-parda”, diz.
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Posse responsável é parte da conservação
Os autores fazem questão de destacar que os cães não devem ser vistos como os responsáveis pelo problema. Para eles, a origem da questão está na forma como esses animais são manejados.
Em vez de concentrar esforços apenas na retirada de cães das unidades de conservação, o estudo defende políticas públicas voltadas à posse responsável, incluindo castração, identificação eletrônica, vacinação e ações de educação ambiental junto às comunidades rurais.
“A raiz de quase todos os problemas que envolvem cães e fauna silvestre passa pela educação. É preciso trabalhar com os produtores rurais e com as pessoas que vivem nessas regiões para mostrar que deixar o animal solto não faz bem nem para a biodiversidade nem para a saúde das próprias comunidades”, conclui Rodolpho.








