Espécie de árvore nativa do Cerrado brasileiro, o baruzeiro produz uma castanha considerada superalimento devido ao elevado teor de proteínas, fibras e antioxidantes
(Foto: Tadeu Graciolli/Embrapa)
Uma pesquisa conduzida pela Embrapa Cerrados aponta que o cultivo consorciado de baru com café irrigado e culturas anuais e bianuais pode abrir uma nova oportunidade para produtores que buscam diversificar a produção, aumentar a rentabilidade e utilizar de forma mais eficiente os recursos disponíveis na propriedade.
Os resultados iniciais mostram que o sistema permite gerar renda desde os primeiros meses de implantação, ao mesmo tempo em que acelera o desenvolvimento do baruzeiro, espécie nativa do Cerrado tradicionalmente explorada por meio do extrativismo.
Os experimentos foram implantados em 2022 em uma área de 3.500 metros quadrados e integram dois sistemas de cultivo que reúnem baruzeiros, cafeeiros irrigados e culturas de ciclo curto, como feijão, abacaxi e mandioca.
A estratégia busca aproveitar a irrigação destinada ao café para viabilizar também outras culturas, criando uma fonte de receita enquanto o baru ainda não entra em produção.
Segundo o pesquisador da Embrapa Cerrados, Tadeu Graciolli, a proposta surgiu a partir da adaptação do Sistema Filho – Fruticultura Integrada com Lavouras e Hortaliças.
“Alguns colegas um dia me perguntaram se seria possível consorciar baru com café e eu disse que sim, uma vez que árvores frutíferas são um dos pilares da tecnologia do Sistema Filho”, relembra.
Um dos diferenciais do sistema de linha dupla é a criação dos chamados “corredores de agricultura”, espaços entre as linhas de café onde são cultivadas espécies anuais e bianuais. Essas lavouras aproveitam tanto a irrigação quanto a estrutura já instalada para o café, permitindo retorno financeiro em poucos meses.
“O sistema LD foi pensado para obtenção de baru no longo prazo, café no médio prazo e culturas anuais e bianuais no curto prazo. Isso é para que o pequeno produtor se sinta seguro em entrar na atividade de plantio de baru, uma vez que outras culturas vão proporcionar giro financeiro enquanto o baruzeiro ainda não estiver produzindo”, explica Graciolli.
Produção antecipada do baru

Nesse sistema o baruzeiro não é adubado, ao contrário das demais culturas. “Ele se aproveita dos nutrientes residuais da adubação do café, do feijão, do abacaxi”, diz o especialista. Foto: Tadeu Graciolli/Embrapa
Um dos resultados que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a precocidade do baruzeiro. Em condições naturais, a espécie costuma iniciar a produção entre sete e dez anos após o plantio.
No experimento, algumas plantas floresceram com apenas dois anos e dez meses e, após pouco mais de quatro anos, nove árvores já haviam florescido e iniciado a formação de frutos.
“Isso é impensável em ambientes naturais ou em plantios de recomposição de áreas degradadas, nos quais não há o aporte de irrigação nem uma melhoria tão substancial no manejo do ambiente de cultivo como aqui, com controle de plantas invasoras, podas, irrigação e adubação”, afirma o pesquisador.
Apesar desse desempenho, o baru não recebe irrigação nem adubação específicas. A espécie aproveita a água e os nutrientes residuais destinados ao café e às demais culturas do sistema.
“A irrigação é dirigida para o café e as culturas de ciclo curto. O baru entra como um ‘convidado’ do sistema, aproveitando a água que sobra dessas outras culturas”, explica Graciolli.
Boas produtividades reforçam potencial

Plantio de mandioca no sistema de linhas duplas com baru e café e abacaxi, aos dois anos de campo. Foto: Tadeu Graciolli/Embrapa
Os resultados também foram positivos para as demais culturas. A primeira safra de café, colhida em maio de 2024, apresentou produtividade média próxima de 40 sacas por hectare, embora as três variedades avaliadas tenham apresentado desempenhos distintos.
Nas culturas de ciclo curto, o feijão registrou produtividade entre 1,8 e 2,2 toneladas por hectare. Segundo o pesquisador, o desempenho foi afetado pelo ataque de veados campeiros, mas poderia superar três toneladas por hectare em condições normais.
O cultivo de abacaxi também apresentou bons resultados. Frutos da cultivar Smooth Cayenne alcançaram entre 1,8 e 2,2 quilos, enquanto a cultivar Pérola produziu frutos entre 1,3 e 1,8 quilos, ambos com boa aparência e qualidade.
Já a mandioca apresentou crescimento contínuo da produção de raízes, passando de 4,5 para 7,5 quilos por cova entre o décimo e o décimo sexto mês após o plantio. Segundo Graciolli, isso representa potencial para produzir cerca de sete toneladas por hectare, contribuindo para manter o fluxo de caixa da propriedade.
“Era uma área, dentro do corredor de agricultura, que não pretendíamos utilizar para plantio. Ao traçarmos o espaçamento, vimos que caberiam mil plantas de mandioca por hectare. Ou seja, com a produtividade alcançada, temos o potencial de produzir 7 toneladas de mandioca para ‘girar a máquina’. Assim, enquanto uma cultura não está entregando produção, com certeza outra estará”, comenta.
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Sustentabilidade e novas oportunidades
Além da diversificação da renda, o pesquisador destaca que os sistemas integrados aumentam a eficiência no uso da água e dos nutrientes, favorecem a biodiversidade e ajudam na redução da incidência de pragas e doenças.
“São produzidos diversos produtos numa mesma área, o que traz sustentabilidade econômica. Isso favorece o pequeno produtor rural para que ele consiga viver da exploração agrícola”, afirma.
Nos próximos anos, a equipe continuará acompanhando o desempenho das lavouras. A expectativa é que, após a quarta safra de café, o sistema seja reavaliado, permitindo novos cultivos nos corredores agrícolas e maior entrada dos baruzeiros em fase produtiva.
Paralelamente, os pesquisadores também selecionam os materiais de baru que apresentam crescimento mais rápido e maior produtividade, com o objetivo de desenvolver mudas superiores para futuros plantios comerciais.
Embora ainda esteja em fase experimental, a expectativa da Embrapa é que o modelo possa se transformar em uma alternativa viável para ampliar a produção comercial do baru, reduzir a dependência do extrativismo e oferecer uma nova opção de renda para agricultores familiares e produtores de maior escala no Cerrado.








