Com vinhedos a mais de mil metros de altitude e o uso da dupla poda, a Vinícola Rio Manso estreia em Jacutinga com sete rótulos e aposta no enoturismo para transformar vinho, paisagem e produção rural em uma mesma experiência
(Foto: Vinícola Rio Manso/Divulgação)
Na Serra da Mantiqueira, a videira aprendeu a trocar de estação. Em vez de amadurecer as uvas no verão chuvoso, como ocorreria no ciclo natural da planta, ela é conduzida para chegar à colheita durante o inverno, quando os dias são ensolarados, as noites são frias e o ar fica mais seco.
É nesse calendário invertido, entre 1.000 e 1.050 metros de altitude, que a Vinícola Rio Manso começa a desenhar sua identidade em Jacutinga, no sul de Minas Gerais.
A vinícola boutique ocupa uma propriedade de 82 hectares, dos quais 11 são destinados aos vinhedos. Cercada por uma área preservada de Mata Atlântica e cortada pelo rio que lhe dá nome, a fazenda fica na Serra dos Encontros, trecho da Mantiqueira situado entre Jacutinga e Espírito Santo do Pinhal, no interior paulista.
O projeto chega ao mercado em 2026 com sete rótulos, produzidos a partir de Pinot Noir, Chardonnay, Viognier, Cabernet Franc e Syrah.
A seleção de castas já mostra a intenção de fugir do caminho mais previsível da região. Há brancos, tintos e rosés, vinhos varietais e cortes. Os nomes carregam cenas da mata e dos campos para a garrafa: Dança do Tangará, Voo do Tucano, Passo da Seriema, Sombra do Jequitibá, Visita do Lobo, Rastro da Urutu e Olhar da Onça.
“A Rio Manso nasceu do desejo de produzir vinhos de alta qualidade que fossem, acima de tudo, uma expressão verdadeira do nosso território. Estamos na Serra dos Encontros, na Serra da Mantiqueira, entre Espírito Santo do Pinhal, em São Paulo, e Jacutinga, em Minas Gerais, em uma região que reúne altitude, solos graníticos e condições muito particulares para a viticultura de inverno”.
A explicação é de Aline Mabel, diretora de Operações e CEO da Rio Manso. PhD em Viticultura, com formação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pela Università di Bologna, na Itália, ela também possui certificação WSET nível 3 e integra as diretorias da Associação Brasileira de Enologia e da Associação Nacional de Produtores de Vinhos de Inverno.
O truque agrícola que muda a estação da uva

Cada variedade e cada parcela do vinhedo são acompanhadas para definir o momento da colheita. Foto: Divulgação
Por trás dos rótulos há uma operação agrícola de precisão. A dupla poda, técnica que se tornou uma das assinaturas da vitivinicultura do Sudeste brasileiro, desloca o ciclo produtivo da videira.
Uma poda é feita para reorganizar o desenvolvimento da planta; outra induz a produção que será colhida no período seco. O resultado é uma mudança decisiva em que a fase final de amadurecimento escapa das chuvas mais intensas do verão.
“Isso muda completamente as condições de maturação. Temos dias ensolarados, noites mais frias e, principalmente, um período mais seco durante a fase final de amadurecimento e colheita. Essa amplitude térmica e a menor incidência de chuvas favorecem a sanidade das uvas e uma maturação mais lenta e equilibrada”.
A altitude e os solos de origem granítica completam essa equação. Mas o terroir, palavra francesa usada para reunir as influências do lugar sobre o vinho, não trabalha sozinho.
Cada variedade e cada parcela do vinhedo são acompanhadas para definir o momento da colheita. A equipe procura conciliar maturação fenólica, ligada ao desenvolvimento de cor, aromas e taninos, com concentração, acidez e frescor.
“No campo, buscamos precisão. A qualidade começa no vinhedo, então acompanhamos cada variedade e cada parcela para determinar o melhor momento de colheita, procurando equilíbrio entre maturação fenólica, concentração, acidez e frescor. É isso que depois buscamos preservar na vinificação”.

A vinícola procura conciliar maturação fenólica, ligada ao desenvolvimento de cor, aromas e taninos, com concentração, acidez e frescor. Foto: Divulgação
Essa lógica também orienta a produtividade. Na visão da empresa, colher mais por hectare não é uma medida suficiente de eficiência se a quantidade comprometer a fruta ou reduzir a longevidade das plantas. O manejo varia conforme as necessidades de cada área, e a irrigação foi planejada para apoiar esse controle sem ignorar as condições naturais da propriedade.
A sustentabilidade, nesse desenho, inclui o ambiente e a continuidade do negócio rural.
“Também entendemos sustentabilidade de uma maneira ampla: envolve o cuidado ambiental, mas também a sustentabilidade econômica e social da propriedade. Um projeto vitivinícola precisa ser saudável no longo prazo, gerar empregos, desenvolver pessoas e criar valor para o território onde está inserido”.
Da taça para a economia da serra

A Rio Manso nasceu do desejo de produzir vinhos de alta qualidade que fossem, acima de tudo, uma expressão verdadeira da Serra dos Encontros, na Serra da Mantiqueira. Foto: Divulgação
A Rio Manso não foi planejada apenas como unidade de produção. Arquitetura, gastronomia, paisagem e hospitalidade entraram no projeto desde o começo.
O espaço para eventos e celebrações já foi inaugurado. A próxima etapa está prevista para 2027, com a abertura da estrutura de hospedagem e a implantação gradual do wine tour, que deverá ter visitas mediante agendamento, degustações, experiências gastronômicas e atividades durante a vindima.
“Queremos ir além da visita tradicional à vinícola. A ideia é que cada pessoa consiga compreender de onde aquele vinho vem, caminhar pelo ambiente onde ele é produzido e criar uma relação afetiva com a paisagem, com o vinho e com a região.”
O plano inclui wine bar, experiências harmonizadas, espaços integrados à paisagem, sunsets, encontros corporativos e celebrações.
Para a empresa, receber visitantes também é uma forma de explicar um vinho ainda pouco familiar para parte do público, que é o produzido no inverno em regiões de altitude do Sudeste.
A visita pode espalhar renda além da porteira. Quem viaja para conhecer uma vinícola procura onde dormir, comer e se locomover.
Você também pode levar para casa queijos, cafés, azeites e produtos artesanais de outras propriedades. Assim, uma garrafa ajuda a organizar uma rede de serviços e empreendimentos rurais que amplia a permanência do turista na Mantiqueira.
“O vinho tem uma característica muito interessante: ele dificilmente constrói um destino turístico sozinho. Quando uma região vitivinícola se fortalece, ela estimula uma cadeia inteira ao redor dela”.
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Aline Mabel, diretora de Operações e CEO da Rio Manso. PhD em Viticultura, com formação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pela Università di Bologna, na Itália. Foto: Divulgação
No mercado, a estratégia inicial mira restaurantes, lojas especializadas e canais capazes de apresentar a história por trás dos produtos. O desafio é aumentar a presença dos rótulos sem trocar identidade por volume. Isso exige preservar o controle da matéria-prima e o padrão dos vinhos à medida que a produção avance.
Também há uma tarefa didática. Embora o vinho brasileiro viva uma fase de diversificação de regiões, estilos e produtores, conquistar novos consumidores ainda depende de mostrar o que o país consegue produzir. Para a Rio Manso, essa abertura passa pela experiência concreta: provar o vinho, entender a dupla poda e enxergar o vinhedo que amadurece sob o céu seco do inverno.
“A Rio Manso quer participar desse movimento mostrando que os vinhos de inverno da Serra da Mantiqueira podem ter identidade, consistência e qualidade para ocupar um espaço relevante tanto no mercado brasileiro quanto, futuramente, fora dele”.








